«Ainda existe a ideia de que a dor faz parte da vida e que é inevitável»

O Centro Multidisciplinar de Dor do Hospital Garcia de Orta, dirigido por Beatriz Craveiro Lopes, celebrou no último sábado o seu 25.º aniversário. Em declarações à Just News, a anestesiologista afirma que, a nível nacional, ainda há muito caminho a percorrer no panorama da dor, mas que se notam mudanças:

"Verifica-se maior sensibilidade e preocupação no tratamento da dor por parte das várias especialidades médicas e cirúrgicas hospitalares, assim como na Medicina Geral e Familiar. Na minha opinião, deve-se às campanhas que têm sido feitas junto de várias especialidades, assim como ao elevado número de médicos internos e de especialistas que fazem estágios de especialização e pós-graduação nas unidades de dor."

No entanto, alerta que "a lacuna continua no ensino pré-graduado". Refere mesmo que "contam-se pelos dedos de meia mão as faculdades de Medicina e as escolas de Enfermagem, públicas e privadas, que têm uma disciplina com o nome Dor."

De acordo com a anestesiologista, "outro ponto importante é a mudança de mentalidade de outros, que já se vai sentindo, de que a dor não se cinge à Oncologia". Beatriz Craveiro Lopes refere mesmo que "a dor oncológica representa cerca de 3% do universo dos todos os doentes com dor crónica, segundo os dados epidemiológicos publicados pelo Prof. Luís Azevedo e pelo Prof. Castro Lopes."

Uma tradição "de não se investir na formação em dor"


A problemática da dor não é novidade. "A primeira unidade surgiu em 1979...", recorda  Beatriz Craveiro Lopes, mas os progressos e mudanças têm sido muito graduais. "Antes de mais, é uma questão cultural, ainda existe a ideia de que a dor faz parte da vida e que é inevitável."

Por outro lado, a médica refere que "existe uma tradição nas escolas de saúde – Medicina e Enfermagem – de não se investir na formação em dor nos anos pré-graduados. Por exemplo, o livro de apoio para o exame na entrada das especialidades médico-cirúrgicas tem cerca de 2000 páginas, mas apenas cinco se devem referir “levemente” à dor. E não de uma forma aprofundada."

Área muito ligada à Anestesiologia

Relativamente ao número de unidades de dor existentes no País, a médica considera que "nalguns locais melhorou, noutros a situação é pior... Esta área está muito ligada à Anestesiologia que, principalmente no Sul, está a ser afetada pela desmultiplicação de postos de trabalho destes profissionais. Mas estas unidades são fundamentais, sem dúvida alguma."



Questionada sobre se as unidades de dor devem ser sempre coordenadas por anestesiologistas, Beatriz Craveiro Lopes afirma que "a coordenação deve ficar a cargo de quem está habilitado para a prática assistencial da Medicina da Dor" e dá um exemplo: "No Hospital de Braga, a equipa é liderada por um médico fisiatra, que tem feito um trabalho muito positivo."

"É preciso ser-se resiliente"

Qual é o segredo para se criar e manter uma unidade de dor que, ao fim de 25 anos, acaba por ser reconhecida como Centro Multidisciplinar de Dor? De acordo com a especialista, não há qualquer dúvida:

"Persistência, resiliência, otimismo e paixão. Como atrás já foi dito, é preciso ser-se resiliente, porque as dificuldades não advêm apenas das vicissitudes da vida profissional, mas também de outros fatores. Devo realçar que facilita ter o apoio do Conselho de Administração, como tem acontecido no HGO."

"Não podemos parar"


Quanto à referenciação feita atualmente em Portugal para as unidades de Dor, Beatriz Craveiro Lopes explica que "os médicos são muito mais cuidadosos e rigorosos. Seguem as normas, referenciando os doentes já com uma sinopse do quadro clínico, assim como das terapêuticas já instituídas e que obtiveram um resultado menos satisfatório."

Acrescenta que a prescrição de analgésicos também melhorou, "pois, anteriormente, não era invulgar referenciarem doentes sem ter qualquer terapêutica analgésica prescrita". E sublinha: "Apesar destes avanços, não podemos parar, ainda há muito trabalho a fazer."



A entrevista completa com Beatriz Craveiro Lopes pode ser lida no Hospital Público de janeiro.

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