Opinião

Internamentos inapropriados no Hospital Público

Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)

O internamento hospitalar é o último recurso do sistema prestador de cuidados de saúde. Apesar do crescente desenvolvimento do ambulatório médico e cirúrgico, pelo volume e intensidade de recursos utilizados, mantém a maior despesa relativa entre as atividades do Hospital Público – últimos dados disponíveis da contabilidade analítica revelam um peso de 51%. Por outro lado, do ponto de vista dos doentes, e das famílias, o internamento hospitalar continua a representar uma elevada carga emocional.

Ao nível dos sistemas de saúde, tem existido uma elevada preocupação em aumentar a eficiência na utilização do internamento através da redução de internamentos e readmissões evitáveis, gestão do internamento com vista a minimizar as estadias ao necessário e pelo desenvolvimento de respostas alternativas de ambulatório mais centradas no doente.

Efetivamente, o prolongamento dos episódios de internamento hospitalar para além do período clinicamente necessário conduz a complicações evitáveis para o doente, aumentando
o risco de infeções nosocomiais, de malnutrição, de depressão, de quedas e de agravamento dos estados de dependência.

Mais, o seu impacto na ocupação de camas hospitalares passa a ter impacto nos tempos de espera para internamentos eletivos (incluindo cirurgias) e no congestionamento dos serviços de urgência, com degradação dos cuidados de saúde ao doente.

O prolongamento dos internamentos é um problema muito complexo. Ao longo do tempo, a incapacidade das famílias e a falta de respostas na comunidade têm sido apontadas como as principais razões para a inadequação do período de internamento. Geralmente, estes internamentos são caracterizados coloquialmente como sociais.

Apesar da relevância do problema, não existiam dados quantitativos nacionais sobre o fenómeno de internamentos sociais que permitiam atuar sobre o problema. A fim de estudar e dar relevo a esta problemática, mas também para fomentar ações conjuntas que minimizem este impacto, a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) criou o Barómetro de Internamentos Sociais (BIS) como um instrumento para a medição periódica deste fenómeno. Desde o primeiro momento, o Barómetro mereceu o apoio do Ministério da Saúde e o suporte da EY.



A primeira iteração do barómetro ocorreu com sucesso no passado dia 2 de outubro, envolvendo 88% dos hospitais públicos, tendo sido validados dados de 79% dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. À data da recolha de dados, 655 camas, o equivalente a 5% do total de camas disponíveis, eram ocupadas com internamentos por causas sociais, predominantemente justificados pela falta de resposta na rede de cuidados continuados.

Mais de metade destes casos localizam-se na região de Lisboa e Vale do Tejo (52%) e, nesta região, a média de tempo dos internamentos inapropriados encontra-se na ordem dos 92 dias. Para a generalidade dos hospitais auscultados, a média de dias de internamento inapropriado está nos 67,2, o que corresponde a uma despesa de 16,5 milhões de euros. A extrapolação deste valor para um ano dos internamentos inapropriados por motivos sociais evidencia um impacto estimado superior a 68 milhões de euros para o Estado (apenas nos hospitais estudados).


O BIS revela ainda que os episódios de internamentos sociais são, maioritariamente, de origem médica (75%), seguindo-se os cirúrgicos (23%) e outros não classificados (2%). Na análise por género, verifica-se que o género feminino está tenuemente em maioria, com uma percentagem de 52% (face aos 48% do género masculino).

No que diz respeito às faixas etárias, 28% correspondem a pessoas entre os 18 e os 65 anos, 34% referem-se ao intervalo entre os 65 e os 80 anos e 37% dizem respeito a internamentos de utentes com mais de 80 anos. Apenas 1% respeita a pessoas com idade inferior a 18 anos.

O objetivo da APAH é manter a monitorização periódica deste fenómeno, de forma a dar relevo à problemática e a fomentar o desenvolvimento de ações conjuntas para minimizar o seu impacto.

Melhor Gestão, Mais SNS.





Artigo publicado na edição de novembro do Hospital Público

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