«As prioridades do SNS para 2026»


Xavier Barreto

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)



Em 2026, melhorar o acesso deverá ser o principal objetivo do SNS. Acesso a consulta ou a cirurgia programada, acesso a cuidados urgentes de forma atempada, acesso aos medicamentos e tratamentos indispensáveis aos nossos doentes. No entanto, para que o acesso melhore, será fundamental definir prioridades na ação.

A primeira prioridade deveria passar necessariamente pela autonomia de gestão das Unidades Locais de Saúde. Não é razoável exigir melhores resultados a organizações que não dispõem de verdadeira capacidade para decidir e agir. Autonomia não significa ausência de regras nem perda de controlo público. Significa permitir que quem gere possa, de facto, gerir: organizar equipas, afetar recursos, adaptar respostas às necessidades reais das populações.

Este reforço da autonomia exigirá também uma revisão séria da carreira de administração hospitalar. Os administradores hospitalares são peças-chave na gestão intermédia das ULS e na concretização das políticas de saúde no terreno. Desvalorizar esta carreira é fragilizar a capacidade do SNS para se transformar.

A segunda prioridade deverá ser melhorar a gestão de recursos humanos. Falta um sistema claro de avaliação, de reconhecimento do mérito e de incentivos alinhados com aquilo que realmente importa: cuidar melhor dos doentes.


Xavier Barreto

Um sistema que trata todos por igual, independentemente do contributo, acaba por desmotivar quem se empenha mais e por nivelar por baixo. É urgente, medir resultados em saúde, avaliar o impacto dos cuidados prestados e reconhecer as equipas que entregam mais valor ao SNS.

A terceira prioridade passa por repensar os percursos dos doentes e a forma como as equipas trabalham em conjunto. O SNS continua excessivamente fragmentado, organizado em silos que dificultam a continuidade dos cuidados. O futuro exige percursos mais integrados, com maior articulação entre níveis de cuidados e com outras entidades do sistema, como farmácias comunitárias, associações de doentes e o setor social. Exige também uma melhor distribuição de tarefas dentro das equipas de saúde, aproveitando de forma mais inteligente as competências de cada grupo profissional.

Autonomia, pessoas e integração deveriam ser temas centrais em 2026. Se o próximo ano se limitar a um conjunto de reformas anunciadas e prioridades difusas, o SNS continuará a perder capacidade. Se, pelo contrário, houver coragem para decidir e capacidade para executar, será possível reforçar o SNS, tornando-o mais eficaz, mais humano e mais próximo dos cidadãos.


Nota: Este artigo de opinião foi escrito para a edição de janeiro 2026 do Jornal Médico, no âmbito da colaboração bimestral de Xavier Barreto.

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