«A síndrome de apneia obstrutiva do sono no feminino»
Marta Drummond
Assist. hospitalar graduada de Pneumologia. Diretora do CRI de Sono e VNI da ULS de São João. Professora auxiliar da FMUP
A síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS) nas mulheres é, em muitas vertentes, diferente da apresentada pelos homens.
Em virtude de esta doença ser maioritariamente uma patologia do género masculino, são usados os mesmos paradigmas de diagnóstico e tratamento para as mulheres, o que, em muitos casos, redunda num total fracasso.
As mulheres têm sintomas diversos dos apresentados pelos homens. Nelas é mais frequente a depressão, a fadiga e as cefaleias matinais, e neles a hipersónia diurna, bem como a diminuição da capacidade de concentração e de atenção. Assim, a comunidade médica tem de ter um limiar de suspeição mais baixo nas mulheres e pesquisar quadros clínicos diversos e específicos de género.
Ademais, as mulheres, também conhecedoras do quadro clínico típico da SAOS (nos homens, claro), desvalorizam os seus sintomas e não os associam à patologia, procurando menos frequentemente ajuda médica.
A idade é, igualmente, um fator que dificulta o diagnóstico atempado nas mulheres, pois, os momentos em que estas estão mais suscetíveis a desenvolver SAOS é diferente do dos homens. Nestes, a meia-idade é o período mais crítico, quer em magnitude de prevalência, quer em gravidade da doença e das suas consequências.
As mulheres, por seu lado, apresentam duas fases da vida em que se encontram particularmente suscetíveis ao aparecimento da SAOS. Uma é a fase pós-menopausa, pois, deixam de se encontrar sob o efeito protetor dos estrogénios e o tónus da musculatura decresce, favorecendo o colapso intermitente da hipofaringe, e também porque após a menopausa o metabolismo se torna mais lento, facilitando a acumulação de tecido adiposo, que poderá reduzir o lúmen da via aérea e a tornar mais suscetível ao colapso.
A outra fase crítica é a gravidez, especialmente no terceiro trimestre, quando o aumento de peso é mais evidente e a retenção de líquidos provoca edema das paredes da via aérea superior, reduzindo o seu lúmen. Acidentes de viação, arritmias e doença coronária são as principais consequências da SAOS nos homens, ao passo que nas mulheres as comorbilidades que lhes estão associadas são mais frequentemente perturbações da ansiedade, depressão e refluxo gastroesofágico.
Os estudos não são totalmente consensuais nos sintomas e nas consequências desta síndrome em ambos os géneros, mas concordam totalmente que aquela se manifesta de maneira diferente e traz consequências diversas em cada um dos géneros.
De tudo o atrás referido se depreende que o diagnóstico de SAOS se faz mais tardiamente nas mulheres, fazendo com que os custos em recursos da saúde sejam mais elevados nelas, quase duplicando os custos requeridos pelos homens com SAOS na fase pré-diagnóstico.
Após o diagnóstico, esta diferença de género mantém-se, maioritariamente pela maior intolerância das mulheres à pressão positiva na via aérea (PAP), requerendo, frequentemente, tratamentos complementares e/ou alternativos (como dispositivos de avanço mandibular e cirurgias do foro da Otorrinolaringologia ou para tratamento da obesidade) e pelo aumento da mortalidade por todas as causas nas mulheres com SAOS versus nos homens com a mesma patologia.
Concluindo, a SAOS nas mulheres é um desafio diagnóstico e terapêutico de que os médicos devem estar cientes e para os quais deverão estar alerta, a fim de ser possível diagnosticar mais cedo a patologia neste género, poupando recursos em saúde e reduzindo a mortalidade.
Nota: Este artigo de opinião foi escrito para a edição de dezembro 2025 do Jornal Médico, no âmbito do Especial dedicado às 11.as Jornadas do GRESP.


