«Diagnóstico de Enfermagem: A atitude tem um poder terapêutico»


Pedro Melo

Especialista em Enfermagem Comunitária. Professor auxiliar convidado do Instituto de Ciências da Saúde/Escola de Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa



Hoje, introduzo aqui, no Diagnóstico de Enfermagem, um tema aparentemente vago, mas dotado de uma importância e complexidade tal que não resisti.

Vivi recentemente um episódio de visita a um serviço de Urgência, na condição de doente (com uma crise alérgica) e vivenciei a importância da terapêutica do ser num nível de importância que seria igual ao corticoide intravenoso que me foi administrado.

Durante o processo de relação entre os profissionais e eu, fui confrontado com várias versões de interação: alguém que me olhou nos olhos, mas que foi incapaz de me escutar, por estar a prestar atenção a muitos outros fatores de distração; uma enfermeira extraordinariamente capaz de escutar todos os doentes, personalizando a sua interação; e duas enfermeiras que de mim se aproximaram para administrar a medicação, mas que estiveram sempre em diálogo entre si sobre outro assunto que não eu e, por isso, senti que eu era acessório a todo o contexto vivencial profissional daquelas profissionais.

No meio destas três experiências (tinha já tido outras no passado, como qualquer um de nós tem e terá na condição de Ser Humano, ao longo da vida), percebi que deveria escrever sobre esta temática. A atitude por todas as vias porque, na relação terapêutica, a atitude deve ser, de facto, administrada por todas as vias que os sentidos permitem, e tem um poder terapêutico, mas também um poder de memória, na construção de um conceito sobre a profissão.

Na área da Gestão, Scott Parry, no final do Século XX, no seu livro A quest of competences”, apresenta-nos o acrónimo C.H.A., para explicar três dimensões indissociáveis na relação profissional, seja entre colegas, seja com os clientes.


Pedro Melo

O “C” representa os Conhecimentos. Naquele serviço vivenciei uma relação com profissionais qualificados ao mais alto nível. Rapidamente me diagnosticaram e tomaram uma decisão clínica sobre as respostas ao problema que ali me levou. O “H” significa Habilidades. Também fui alvo das melhores habilidades técnicas. A enfermeira que me puncionou fê-lo de forma exímia. O “A” significa Atitude.

Nesse contexto é que senti falta do elemento que contribuiria, de uma forma plena, para o meu bem-estar e para a minha construção positiva da experiência vivencial.

Os profissionais de saúde, particularmente os enfermeiros, estudam comunicação de uma forma muito aprofundada, treinando competências de comunicação em diferentes contextos e refletindo em profundidade sobre a sua importância. A relação pessoa-enfermeiro e pessoa-cliente é dotada de uma profundidade interacional que lhe confere um nível que transcende a existência física.

É no desenvolvimento de um rapport espiritual que o enfermeiro consegue personalizar e garantir o sucesso dos seus cuidados. O Diagnóstico de Enfermagem é, por isso, exigente, seja nos critérios, seja nos processos diagnósticos, que têm necessariamente de ir além do corpóreo.

Por isso, a falta de CHA, ou de apenas um dos seus elementos, desmorona a escada de sucesso terapêutico.

O CHA representa, em cada letra, um pilar que sustenta esta escada. Coloca-se aqui a essência de Kant, em que a razão julga a própria razão. Neste conhecimento sustentado na Enfermagem enquanto ciência, que conhecimento é permitido ao conhecimento sobre ela mesma para promover o pilar da atitude? Será necessário refletir sobres os processos de Ensino para promover esta capacidade de análise transcendental nos enfermeiros?

O currículo dos cursos de Enfermagem mobiliza a filosofia, a sociologia, a antropologia, as teorias da comunicação, a anatomia e fisiologia, mas é preciso talvez promover a reflexão sobre a própria reflexão, para que na interação terapêutica se identifiquem processos de relação pessoa-enfermeiro e pessoa-cliente únicos, irrepetíveis (ainda que padronizados em qualidade) e, acima de tudo, efetivamente terapêuticos, na intencionalidade conferida pela competência transcendental da atitude.

Acredito que a maior parte dos enfermeiros é e tem CHA. Naquele serviço consegui sorrir ao observar uma das enfermeiras. Na constatação da existência da excelência continua a esperança de um constructo social futuro assente na verdadeira política, que é a relação com os outros.

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