A afirmação internacional da Medicina Respiratória nos Cuidados de Saúde Primários portugueses


Pedro Fonte

Médico de família, USF do Minho, ULS de Braga. Assist. convidado da Escola de Medicina da UM. Coord. do GRESP – Grupo de Doenças Respiratórias da APMGF



Quando, em junho deste ano, profissionais de saúde de todo o mundo se reuniram em Túnis para a 13.ª Conferência Mundial do International Primary Care Respiratory Group (IPCRG), que coincidiu com a celebração dos 25 anos desta organização, tornou-se evidente o crescente envolvimento de vários colegas portugueses em projetos internacionais dedicados à Medicina Respiratória nos Cuidados de Saúde Primários (CSP).

Mais do que um congresso científico, este encontro constitui um espaço privilegiado de colaboração entre clínicos, investigadores e formadores de diferentes países, unidos pelo objetivo comum de melhorar os cuidados prestados às pessoas com doença respiratória.

O IPCRG tem desempenhado um papel determinante neste percurso. Trata-se de uma organização internacional que reúne não só médicos de família como também enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, educadores e representantes de associações de doentes, promovendo a investigação, a educação e a implementação de soluções adaptadas à realidade de cada sistema de saúde. Uma das suas características mais distintivas é a capacidade de desenvolver ferramentas práticas que permitem aos profissionais de saúde integrar a evidência científica na sua atividade clínica quotidiana e facilitar a implementação de boas práticas.

O GRESP é parceiro do IPCRG há muitos anos e tem participado ativamente em diversos projetos científicos e educativos. Esta ligação ganhou em 2026 um significado particularmente especial com a eleição da Dr.ª Cláudia Vicente para a presidência do IPCRG. Depois de o Prof. Jaime Correia de Sousa ter previamente desempenhado estas funções, Portugal volta, assim, a assumir a liderança da organização.

Para o GRESP, cuja coordenação atualmente tenho a honra de assegurar, é motivo de enorme orgulho ver dois antigos coordenadores assumirem a liderança daquela que é talvez a principal organização internacional dedicada à Medicina Respiratória nos CSP. Este facto representa um reconhecimento do trabalho desenvolvido ao longo de muitos anos e constitui também uma excelente oportunidade para reforçar ainda mais a colaboração entre ambas as instituições. Não posso, por isso, deixar de felicitar a Dr.ª Cláudia Vicente e desejar-lhe o maior sucesso neste novo desafio.

Entre as iniciativas promovidas pelo IPCRG, destacam-se os programas Right Care, que procuram promover os cuidados certos, às pessoas certas, no momento certo e de acordo com a realidade de cada sistema de saúde. Atualmente, estes programas abrangem áreas como a asma, a DPOC e a rinite, procurando reduzir a distância entre aquilo que a evidência científica recomenda e aquilo que acontece diariamente na prática clínica.

É neste contexto que se enquadra o programa COPD Right Care, do qual tenho o privilégio de fazer parte desde a sua criação, em 2021, integrando a respetiva Strategy Team e coordenando o grupo português. Ao longo destes anos, uma equipa internacional tem desenvolvido um conjunto diversificado de ferramentas destinadas a apoiar a prática clínica e a formação, entre as quais a Roda da DPOC e os Cartões de Perguntas e Desafios, entre outros materiais hoje já utilizados em diferentes países.

Estes recursos têm servido de base a oficinas internacionais, programas de formação, sessões científicas e iniciativas educativas realizadas em congressos internacionais, reuniões nacionais das sociedades científicas parceiras e noutras atividades de formação em diferentes países. Portugal tem participado ativamente neste percurso, contribuindo não apenas para a divulgação destes recursos, mas também para o seu desenvolvimento.

A Conferência Mundial de Túnis voltou a demonstrar a importância desta colaboração internacional. Para além da elevada qualidade do programa científico, constituiu um espaço único para a partilha de experiências, discussão de desafios comuns e apresentação de soluções inovadoras para a melhoria dos cuidados respiratórios nos CSP.

Entre os vários momentos do congresso, gostaria de destacar o lançamento do novo Desktop Helper dedicado à doença pulmonar intersticial, um recurso concebido para apoiar os médicos de família na identificação precoce destas patologias frequentemente subdiagnosticadas, o que ilustra bem a filosofia do IPCRG -- desenvolver ferramentas simples, práticas e úteis para a atividade clínica.

Também, neste congresso, alguns colegas participaram ativamente na dinamização de oficinas, moderação de sessões e apresentação de trabalhos científicos, refletindo o envolvimento que diferentes elementos do GRESP têm vindo a assumir nas atividades da organização.

Pessoalmente, tive o privilégio de contribuir através da dinamização de uma oficina do programa COPD Right Care, dedicada à demonstração da utilização prática dos seus recursos educativos, da apresentação de um trabalho de investigação sobre a custo-efetividade de uma estratégia de identificação de casos de DPOC utilizando um mini-espirómetro, da moderação de uma sessão de comunicações orais e da participação numa sessão plenária dedicada às mais recentes iniciativas do IPCRG na área da educação.

Mais do que as atividades individuais de cada participante, a principal mensagem que retiro desta conferência é o crescente envolvimento de vários profissionais portugueses em projetos internacionais de investigação, educação e implementação na área da Medicina Respiratória nos CSP. Esse percurso resulta do trabalho desenvolvido por diferentes colegas e tem encontrado no GRESP um importante ponto de encontro e de dinamização.

Num contexto em que as doenças respiratórias continuam a representar um importante desafio para os sistemas de saúde, esta colaboração internacional constitui uma oportunidade de aprendizagem e uma responsabilidade acrescida. Continuar a fortalecer estas parcerias, desenvolver ferramentas úteis para os profissionais de saúde e contribuir para aproximar a evidência científica da prática clínica será, certamente, a melhor forma de reforçar a qualidade dos cuidados respiratórios prestados nos CSP.



O artigo pode ser lido na edição de julho do Jornal Médico.




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