Utilização de cadáveres humanos ajuda a formar internos de ORL na área da cirurgia cervical

A Clínica Universitária de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e o Serviço de ORL do Instituto Português de Oncologia do Porto organizaram a 5.ª edição do Curso de Cirurgia Cervical, no qual participaram 20 internos de ORL de todo o País, atingindo-se o número máximo permitido de inscrições. A Just News esteve presente no primeiro módulo.



Eminentemente prático, este Curso de Cirurgia Cervical, que conta com o apoio da Minisom, uma marca Amplifon, tem como principal objetivo contribuir para a formação e melhorar a preparação dos internos de ORL na área da cirurgia cervical.

É constituído por dois módulos. O primeiro, dedicado à dissecção no cadáver, teve lugar no final de setembro, no Teatro Anatómico da FMUC (Polo I e Polo 3).

Em entrevista à Just News, António Miguéis, regente da Unidade Curricular de ORL da FMUC, recorda que a ideia da iniciativa surgiu de uma das antigas direções do Colégio da Especialidade de ORL da Ordem dos Médicos, "devido à constatação da existência de um défice na formação dos futuros otorrinos em cirurgia cervical".


Médicos especialistas com experiência na área da cirurgia cervical supervisionaram as dissecções e a execução das diversas técnicas


“Em Portugal, a nossa especialidade é conhecida só por Otorrinolaringologia e na Europa também, mas os médicos e, sobretudo, as sociedades científicas preferem utilizar o nome de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cervicofacial”, acrescenta, admitindo concordar com a designação.

Mas, segundo refere, há poucos otorrinos a dedicarem-se à cirurgia cervical, "o que faz com que alguns especialistas, na Urgência, não se sintam habilitados a realizar atos direcionados para o pescoço, como, por exemplo, a drenagem de abcessos cervicais".

"Doar o corpo à ciência é um ato do maior filantropismo"

Como António Miguéis é também diretor do Instituto de Anatomia Normal da FMUC, havia a possibilidade de treinar a dissecção no cadáver.

Desde a 1.ª edição do Curso, que teve lugar em 2011, que a técnica de conservação dos cadáveres tem vindo a ser aperfeiçoada, permitindo que, neste momento, "as dissecções sejam realizadas em melhores condições".

António Miguéis frisa que só foi possível utilizar estes cadáveres graças ao Decreto-Lei n.º 274/99, de 22 de julho, que estabeleceu quais os procedimentos a adotar para os corpos doados para fins de ensino e de investigação.

“Manifestar em vida o desejo de doar o corpo à ciência é um ato do maior filantropismo já que, ao fazê-lo, os doadores irão permitir aos médicos aprender e, assim, tratar melhor os doentes”, realça.


Eurico Monteiro e António Miguéis

Aprofundar conhecimentos e treinar técnicas

Dedicado à dissecção no cadáver, o primeiro módulo teve como intenção permitir a cada um dos 20 participantes aprofundar os seus conhecimentos anatómicos e treinar diversas técnicas de cirurgia cervical na área de ORL.

A cada dois participantes foi atribuído um cadáver, onde tiveram a possibilidade de efetuar a identificação de estruturas anatómicas relevantes e, depois, treinar diversas técnicas de cirurgia cervical: as diferentes modalidades de esvaziamento cervical, traqueotomias, técnicas parciais e totais de cirurgia laríngea, cirurgias direcionadas às glândulas salivares (parótida e submandibular) e também vias de acesso à base do crânio.

Pela primeira vez, foi feita, por Eurico Monteiro, diretor do Serviço de ORL do IPO-Porto, uma demonstração em direto de uma dissecção cervical no cadáver.



Este médico do IPO-Porto destaca a atualização e a melhoria das condições logísticas, com a criação de uma nova estrutura na FMUC, inaugurada para o efeito no primeiro dia do Curso, que inclui não só um auditório como também novas salas para dissecção e armazenamento de cadáveres, bem como meios audiovisuais adequados, o que torna esta estrutura, “neste momento, uma das melhores da Europa”.

“Este Curso é básico porque faz todo o sentido que quem se vai iniciar em cirurgia saiba quais são as estruturas do pescoço, aquelas que podem e devem ser poupadas e as passíveis de serem retiradas, com maior ou menor impacto”, refere, acrescentando:

“É um curso destinado à identificação de estruturas, em que os participantes estão em contacto com o tecido que, não sendo vivo, é em tudo semelhante. O objetivo é ver texturas e cores, identificar vasos e nervos, para que depois, quando começarem a desempenhar prática clínica nesta área, se consigam defender ou direcionar sempre que a necessidade cirúrgica o exigir”, explica Eurico Monteiro.

Preservação de estruturas anatómicas implica um grande conhecimento de anatomia

António Miguéis destaca que a cirurgia se tem tornado, sempre que  possível, mais funcional e menos radical. Ora, “a cirurgia funcional obriga à preservação de estruturas, importantes para a manutenção da função, o que implica um conhecimento mais detalhado da anatomia da região em causa.”



Do ponto de vista daquilo que é o conceito de cirurgia e a aplicabilidade que a mesma tem, Eurico Monteiro afirma que a Cirurgia Cervical se tem mantido semelhante nos últimos anos, sendo adequada a patologias oncológicas e não oncológicas. A diferença está em quem a executa ou quem trabalha na área.

“Nos tempos que correm, cada vez há menos setorização de territórios. Portanto, há uma tendência para que a zona do pescoço seja abordada por diversas especialidades. Evidentemente, quanto mais pessoas estiverem a mexer, se não tiverem formação adequada, mais problemas se podem vir a criar aos doentes”, diz o médico do IPO-Porto.

Na sua opinião, pela complexidade do pescoço, que é uma região onde passam estruturas muito importantes, “é relevante que os futuros especialistas tenham a possibilidade de fazer um treino como este, para se considerarem aptos a poder exercer com algum à vontade a cirurgia nos doentes”.


Formadores e formandos do 1.º módulo da 5.ª edição do Curso de Cirurgia Cervical




A reportagem completa pode ser lida no jornal Hospital Público de outubro

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