Doente neurocrítico: «A interação da família ajuda o seu cérebro a recuperar»

"Para o doente neurológico, o contacto com a família não é apenas uma questão de afeto, é algo fundamental para a sua reabilitação." A garantia é dada por Celeste Dias,  uma das especialistas de Medicina Intensiva que integram a equipa da Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) de Neurocríticos do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ).

De acordo com a médica, "é a forma como os familiares interagem com ele que ajuda o seu cérebro a recuperar". Nesse sentido, a realidade atual levanta um grande desafio: "Nesta fase, está a ser difícil termos que lidar com a falta da família, não só do ponto de vista humano, mas, em particular no doente neurológico, como uma forma de reabilitação da função cerebral."



Assim, a médica faz mesmo questão de deixar um apelo: que se consigam gerar circuitos dentro do hospital que permitam trazer de volta as famílias, "porque fazem muita falta aos doentes".

Celeste Dias refere-se especialmente aos doentes neurológicos, desde logo "os que se encontram em situação mais crítica" e que, por isso mesmo, acabam internados em Cuidados Intensivos.  

Celeste Dias

Em entrevista à Just News, a médica  e ex-coordenadora da Medicina Intensiva Neurocríticos 8 do CHUSJ, desenvolve a sua ideia: “Quando tratamos o cérebro, verdadeiramente, estamos a tratar a identidade da pessoa. É o cérebro que define quem nós somos, quem fomos e, eventualmente, quem vamos ser. Nunca nos podemos esquecer que, perante um doente neurológico, estamos a tratar o eu daquela pessoa."

E acrescenta: "Para nós, médicos e enfermeiros, o nosso desejo é tentar recuperar o órgão cérebro doente mas também aquilo que representa em termos da essência da pessoa."

A criação de uma UCI muito específica: “Estes doentes mereciam um tratamento diferenciado” 

Colocada no São João como interna de Anestesiologia, Celeste Dias nunca mais deixou o hospital, onde, recorda, foram os anestesistas que estiveram na base da Medicina Intensiva, que a certa altura se autonomizou, levando-a a optar por esta especialidade. Acabou por ficar alguns anos integrada numa UCI Polivalente.

Em 1998, uma década depois da criação da Unidade de Cuidados Pós-Operatórios de Neurocirurgia, com o apoio aos doentes assegurado por neurologistas e neurocirurgiões, “chegou-se à conclusão de que não era fácil lidar com estes casos mais complexos sem uma base de Medicina Intensiva”.



Foi então decidido criar a UCI Neurocríticos – “ou UCI Neurológicos, porque foi mudando várias vezes de nome”, explica a médica –, tendo sido convidada para assumir a sua coordenação. Tarefa que aceitou, ciente de que “estes doentes mereciam um tratamento diferenciado” e consciente de que “o cérebro tem muita capacidade de recuperação se nós lhe dermos essa oportunidade e com o tratamento correto para o poder restaurar”.

Celeste Dias foi “à procura de rumos”! Fez um estágio em Espanha, mas o modelo que encontrou, “muito centrado na pessoa e pouco na equipa”, não lhe agradou. Esteve na Alemanha, mas achou esse modelo “muito focado na Neurocirurgia e pouco na Medicina Intensiva”.


Celeste Dias: "Um software permite fazer o tratamento individualizado de cada caso"

Foi em Cambridge que Celeste Dias encontrou o tipo de funcionamento que lhe pareceu mais adequado para uma UCI destas, baseado na equipa médica e de enfermagem de Medicina Intensiva, com a consultadoria diária da Neurocirurgia.

“Fazia sentido!”, diz. Da Universidade de Cambridge haveria de trazer igualmente, mais tarde (em 2011), um software que ali foi desenvolvido e que "permite fazer o tratamento individualizado de cada caso de acordo com a evolução que vai tendo”.

No seu entender, “a introdução dessa ferramenta de apoio à decisão clínica veio transformar completamente a nossa forma de trabalhar e de ver o doente, a nível médico e de enfermagem”. Profissionais de outras unidades do país têm tido, entretanto, oportunidade de fazer formação na UCI Neurocríticos do São João na utilização desse software.


Habitualmente, passam todos os
meses pela UCI Neurocríticos
uns 6 a 7 internos em formação,
oriundos de todo o país.

Envolver a Matemática e a Bioengenharia em projetos de investigação

Celeste Dias deixou a coordenação da MI UCI Neurocríticos 8 no início de 2019, 20 anos depois de a ter assumido e com um doutoramento pelo meio que incluiu a apresentação de uma tese em que procurou demonstrar que o trabalho ali realizado está ao nível do melhor que se faz nos países mais desenvolvidos.

Mais concentrada no ensino e na investigação, participa em vários projetos, sobretudo com a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, nomeadamente com o Centro de Matemática: “Estudamos a alteração do sistema nervoso autónomo decorrente da lesão neurológica, algo muito pouco investigado a nível mundial e que exige um conhecimento de análise de sinal e de análise matemática relevante. Só com o apoio da Matemática pura conseguimos fazer isso.”

Por sua vez, com a Faculdade de Engenharia da UP, em particular com a Bioengenharia, “estamos a trabalhar o grande volume de dados de monitorização cerebral dos nossos doentes, recorrendo a tecnologias de deep learning e Inteligência Artificial, para ver se conseguimos descrever os conhecimentos que já temos e, eventualmente, chegar a outros novos”.



Estimular o cérebro "de acordo com o ritmo circadiano normal"

Na prática, Celeste Dias gere um laboratório clínico na sua UCI que, não tendo ainda um nome formal, bem se poderia chamar, no seu entender, Unidade de Investigação em Neurocríticos. “Um dos objetivos finais é poder chegar à institucionalização de uma eventual Unidade de Investigação em Neurointensivismo dedicada aos doentes neurológicos”, refere.

Foi nessa linha, aliás, que a professora auxiliar convidada da FMUP lançou este ano a Unidade Curricular Optativa de Neurointensivismo, no âmbito do Mestrado Integrado de Medicina.



Nesta UCI que Celeste Dias montou e coordenou durante duas décadas, e que tem um dos lados virado a nascente e o outro a poente, há muita luz natural durante o dia e uma luz indireta de noite. Não é por acaso:

“Procuramos alternar a atividade do dia com a calma da noite, para que o cérebro seja estimulado de acordo com o ritmo circadiano normal e, com isso, permitir uma reabilitação mais adequada dos doentes”, explica.



A entrevista com Celeste Dias pode ser lida na edição de setembro/outubro do jornal Hospital Público, no âmbito de uma extensa reportagem sobre o tratamento do doente neurocrítico no CHUSJ.

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