Tratamento de feridas: «Criação de centros de referência é uma necessidade»

Há 2 anos à frente da Associação Portuguesa de Tratamento de Feridas, o enfermeiro Paulo Alves garante ser “absolutamente necessário” haver centros de referência para o tratamento de feridas. “Pelo menos um, no máximo dois, um a norte, outro a sul”, especifica, lembrando que “somos um país pequeno”, com um número de habitantes não muito diferente do da Dinamarca, onde existem dois centros.

“Se o tratamento de uma ferida não tiver sucesso numa intervenção comum de 4 a 6 semanas, o caso deveria ser referenciado para um centro especializado, dispondo de uma equipa multidisciplinar capaz de fazer uma outra abordagem ao doente”, esclarece Paulo Alves, acrescentando:

“Reduziríamos muito os custos do tratamento, que são frequentemente agravados pelas cargas enormes de fármacos utilizados, a descompensação dos doentes, a utilização incorreta de terapêuticas... E garantiríamos a equidade e a acessibilidade perante os utentes do SNS.”



Na sua opinião, o processo deveria iniciar-se com a criação de um centro de referência piloto, assumindo-se como “um local de excelência capaz de dar uma resposta mais eficaz no tratamento do doente com ferida”, à semelhança do que já existe, aliás, na nossa vizinha Espanha. Ou até em Portugal, em áreas como a Cardiologia e a Oncologia. O nome sugerido: Centro de Referência de Ferida Complexa.

"Um problema sério de Saúde Pública”

Em matéria de feridas – e a realidade nacional coincide com o que dizem os estudos feitos lá fora –, os locais mais críticos dentro do hospital são os serviços de Cirurgia, em termos de feridas agudas, e os serviços de Cuidados Intensivos e Medicina, quando falamos de feridas crónicas.

“Eu diria que, em boa verdade, todos os médicos e enfermeiros de um hospital lidam com feridas”, afirma Paulo Alves, prosseguindo: “Se me perguntar quais deles são realmente peritos nessa matéria, eu diria que são poucos.”

O presidente da APTFeridas esclarece que, nos hospitais portugueses, as feridas atingem um em cada três utentes, sendo que, desses, um em cada quatro tem ferida aguda e um em cada nove padece de ferida crónica. “Estamos a falar de um problema sério de Saúde Pública”, avisa Paulo Alves.


"A APTFeridas é uma associação pioneira na área da prevenção e tratamento de feridas em Portugal", sublinha Paulo Alves

Objetivo: ajudar o cuidador

Paulo Alves afirma que a Associação que dirige tem agora um objetivo muito bem definido: “Nós temos estado muito voltados para o profissional que trata as feridas, agora queremos fazer uma abordagem ao cuidador, pretendemos estar mais próximos dele. Temos a noção clara de que o cuidador precisa de ajuda, de educação, de formação, para que possa tratar melhor do seu próprio doente em casa.”

“O país está cheio de cuidadores. Trata-se de uma necessidade social que não está a ser trabalhada. Temos, hoje em dia, cuidadores mais velhos do que os próprios doentes. Precisamos de arranjar estruturas de educação e apoio num contexto domiciliário que possa reduzir este problema, que é, na verdade, uma questão de saúde pública, em Portugal e a nível internacional”, considera o nosso entrevistado.

Na área das feridas, e no que respeita à realidade hospitalar, é possível, de certa forma, constatar o sucesso da intervenção dos profissionais quando ao doente, submetido, por exemplo, a uma terapia mais avançada, é dada alta 2 ou 3 dias antes do que seria “normal”.

As contas são fáceis de fazer, dá a entender Paulo Alves. Se se considerar que, dessa forma, se reduz o período de internamento em 2 ou 3 dias, e que a cada doente corresponde, num hospital comum, uma diária de 250 a 300 euros, rapidamente se conclui que é possível poupar.

“Mas, na verdade, quando damos  alta a um doente, precisamos do cuidador. Temos os outros profissionais de saúde que vão dar uma resposta de continuidade, mas necessitamos do cuidador, efetivamente, em casa”, insiste o presidente da APTFeridas.  E lembra que também se deve falar em prevenção: “Se conseguirmos preveni-las e as complicações que uma ferida pode acarretar, o Estado também poupa.” 

A redução de custos tem que ser obtida “assegurando a qualidade dos cuidados prestados e isso torna-se difícil porque muitas vezes o número de profissionais é insuficiente para aquilo que queremos garantir, a segurança clínica”.

Uma associação com 20 anos e em que 80% dos seus membros são enfermeiros

"Foi há 20 anos que um conjunto de enfermeiros e médicos se uniram e a criaram, com o objetivo claro de promover a formação e a investigação na área das feridas." Ao longo destes anos, a APTFeridas foi registando muitas alterações nos Órgãos Sociais, mas a verdade é que Paulo Alves é apenas o seu 2.º presidente.

O cirurgião Aníbal Justiniano, um dos elementos fundadores, assumiu esse cargo durante 18 anos. Curiosamente, ao contrário do que sucede com associações congéneres de outros países, em que esse cargo é assegurado por um dermatologista, esta especialidade médica não tem expressão na APTFeridas, sendo a Cirurgia Geral, a Cirurgia Plástica, a Endocrinologia, a Cirurgia Vascular e a Medicina Geral e Familiar as mais representadas.

Com cerca de 800 associados, 80% dos membros da APTFeridas são enfermeiros e os restantes 20% são constituídos por profissionais de diferentes áreas, como médicos, nutricionistas, farmacêuticos e fisioterapeutas. Em 2008, com a colaboração da APTFeridas, foi criada a Sociedade Iberolatinoamericana em Úlceras e Feridas, integrando representantes de Portugal, Brasil, Espanha, Chile, México e Argentina.


O Congresso APTFeridas’18 registou cerca de 1500 inscritos, um número semelhante ao observado nos últimos anos.

enfermeiro, professor e investigador

Paulo Alves é, hoje em dia, professor auxiliar na UCP, dando aulas no Porto e em Lisboa, mas recorda os cerca de 10 anos que trabalhou em hospitais do norte, nomeadamente naqueles que considera serem de referência para si: o CH de Vila Nova de Gaia/Espinho e o agora designado CH Universitário de São João.

A maior parte do tempo foi passada nos Cuidados Intensivos, admitindo, sem dificuldade, que a área do doente crítico foi sempre “a que mais me apaixonou”, e com um gosto muito grande pela viabilidade tecidular, nomeadamente as feridas, “mas mais centrado nas feridas crónicas”.

“As feridas estavam longe de ser a minha área de interesse fundamental, o que se alterou quando constatei que não tínhamos uma resposta continuada. Havia muita desigualdade, múltiplas abordagens distintas no tratamento...”, explica, acrescentando: “Ainda hoje mantenho a prática clínica na abordagem dos doentes e interesso-me pela investigação, que considero absolutamente necessária para conseguirmos melhorar a qualidade dos cuidados prestados aos doentes.”



É com evidente entusiasmo que Paulo Alves refere a responsabilidade que tem na coordenação do Wounds Research Lab, sediado no Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa, no Centro de Investigação Interdisciplinar em saúde (CIIS), “mas de âmbito nacional”, frisa.

Sublinhando ser o único laboratório nacional associado às feridas, está vocacionado para desenvolver investigação nessa área. “Estamos associados à inovação em novas tecnologias, com soluções novas quer para a prevenção como para o tratamento de feridas, ao nível da otimização e da sua aplicação, promovendo estudos comparativos que permitem conduzir a uma melhoria, na prática clínica, dos cuidados ao doente com ferida”, esclarece Paulo Alves.
 


A entrevista completa pode ser lida no Hospital Público de dezembro.

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