Rastreio à doença arterial periférica na USF Corino de Andrade: «um projeto a replicar»

Como a doença arterial periférica é silenciosa e se pode tornar muito debilitante, a USF Corino de Andrade decidiu realizar uma iniciativa de rastreio com base na medição do índice tornozelo-braço. Um projeto que começou pouco antes da pandemia e que, apesar da sobrecarga de trabalho nos CSP, não está parado.



“A equipa de saúde familiar tem um papel fundamental na prevenção e no diagnóstico precoce, não se focando apenas no tratamento.” As palavras do enfermeiro de família Paulo Ramos, da USF Corino de Andrade, espelham o trabalho realizado pela unidade desde que abriu portas, em dezembro de 2010, localizando-se no mesmo edifício da USF do Mar e da USF Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim.

Especialista em feridas e um homem de causas, está na USF desde 2018, procurando envolver-se em projetos de prevenção da doença e de promoção da saúde. O mais recente é o rastreio à doença arterial periférica (DAP), que decorreu entre dezembro de 2019 e fevereiro deste ano.


Paulo Ramos

“Esta patologia pode ser muito incapacitante, provocando úlceras graves, que podem levar mais de um ano a fechar, além de aumentar o risco de acidentes cerebrocardiovasculares, como acidente vascular cerebral (AVC) ou enfarte agudo do miocárdio (EAM)”, explica Paulo Ramos.

O principal objetivo deste trabalho de investigação é detetar os casos assintomáticos de DAP, para que o tratamento se possa iniciar o quanto antes, de forma a evitarem-se complicações mais graves. “A DAP começa de forma silenciosa e insidiosa e, se não for tratada, é altamente incapacitante, quer pela ferida em si como pelas sequelas de um possível AVC ou de um EAM”, alerta.

Juntamente com os restantes membros da USF, lançou “mãos à obra” na altura do Natal de 2019 e início do ano (2020), quando há menos utentes. Foram, assim, selecionados pelos médicos, numa primeira fase, todos os utentes da USF que tivessem entre 45 e 69 anos e que fossem hipertensos, não diabéticos e fumadores. Segundo Paulo Ramos, a razão de ser desta amostra é simples:



“A hipertensão é dos principais fatores de risco para a DAP, assim como o tabagismo. Não incluímos pessoas com diabetes porque já são rastreadas no exame do pé, que é feito pelo menos uma vez por ano.

No caso dos hipertensos fumadores não diabéticos isso não acontece e podem-nos escapar casos; além disso, a probabilidade de se ter DAP, mesmo que assintomática, num diabético não fumador é idêntica à de um hipertenso fumador.”


Elementos da equipa da USF Corino de Andrade

Alargar o projeto a outras unidades dos cuidados primários

O rastreio teve por base a medição do índice tornozelo-braço, sendo que os equipamentos necessários são sempre o esfigmomanómetro e um doppler vascular portátil. Mas a equipa contou, para este estudo, com a ajuda de um aparelho, chamado Mesi, com três braçadeiras que permite medir a pressão no tornozelo e no braço, em simultâneo.

“Tivemos o apoio de uma empresa que nos disponibilizou esta ferramenta, que permite fazer o exame em apenas 1 minuto e meio, em vez dos 20 minutos habituais, com esfigmomanómetro doppler vascular portátil, além de detetar alterações vasculares que indiciam uma possível DAP mais tarde”, esclarece Paulo Ramos.

Após a convocação dos utentes, houve quem se recusasse ou desistisse à última hora, mas, mesmo assim, foram rastreados 82. Verificou-se que cinco deles tinham DAP assintomática. “Já estão a ser medicados e acompanhados pelo médico de família. Se não tivessem vindo, iriam aperceber-se da doença mais tarde, o que poderia ser mais complicado”, sublinha o enfermeiro.

A equipa vai ainda avaliar a correlação entre DAP e hipercolesterolemia e entre DAP e carga tabágica. “Já o devíamos ter feito, mas a pandemia alterou o nosso dia-a-dia. Contudo, espero que nos primeiros meses de 2021 se consiga chegar a algumas conclusões."



Além de rastrear a população desta USF, Paulo Ramos e a equipa quiseram mostrar como se pode e deve apostar na prevenção da DAP a nível nacional. Até porque, “diminuindo-se a carga de doença, e evitando-se casos complexos, também estamos a ser mais custo-efetivos”. O enfermeiro defende, assim, a expansão deste projeto às restantes unidades de cuidados primários do país, realçando que a base está na medição do índice tornozelo-braço.

Contudo, para que "a replicação do projeto se torne uma realidade, há que investir em dois pontos essenciais: a formação de médicos e de enfermeiros e a aquisição de material".

Na sua opinião, “o doppler vascular portátil não é assim tão dispendioso e é fundamental em mais do que uma situação, quer seja para rastreio da DAP como no pé diabético, por exemplo. O custo inicial será facilmente colmatado com os ganhos que se irão obter na prevenção da doença”. E acrescenta:

“Não podemos ter apenas uma visão a curto prazo quando estamos a falar da saúde da população.”

Outro aspeto relevante deste rastreio tem que ver com a promoção da educação para a saúde, o “cavalo de batalha” de qualquer equipa.

“Notou-se que os doentes se aperceberam do seu estado de saúde e de  como devem alterar alguns hábitos menos saudáveis, relacionados, nomeadamente, com o tabagismo, a dieta alimentar rica em gordura e açúcar e o sedentarismo", refere Paulo Ramos. Além disso, "estão mais alerta para os sinais ou sintomas que podem surgir, pedindo ajuda numa fase mais precoce.”

Outra vantagem da medição do índice é ser um exame simples e indolor. “Em termos de adesão não há obstáculos”, frisa Paulo Ramos.



“Não havia um continuum de cuidados e isso motivou-me a fazer algo por estas pessoas”


Tem 40 anos e é natural de Vila do Conde. Paulo Ramos Iniciou a sua atividade no Hospital de S. João, onde se interessou pela área das feridas, tendo sido formador nos Cuidados Intensivos Neurocríticos.

Posteriormente, passou pela USF S. Bento, do ACES Gondomar, antes de integrar a USF Corino de Andrade, em 2018. “Não havia um continuum de cuidados e isso motivou-me a fazer algo por estas pessoas”, sublinha. Dinamizador do primeiro estudo epidemiológico de feridas do ACES, é formador da ARS Norte e membro do Grupo de Trabalho de Normalização dos Registos de Feridas e docente convidado da Universidade Católica.

Faz ainda parte do Comité Científico de elaboração da Norma de Prevenção e Tratamento de Úlceras por Pressão em Idade Pediátrica no Adulto e Idoso da Direção-Geral da Saúde. Além de todas estas responsabilidades, é vice-presidente da APTFeridas e membro do Conselho da EWMA - European Wound Management Association.

Sendo um homem de causas, entre abril e maio, voltou à UCI do Hospital de S. João para integrar a equipa covid. Foi um tempo que exigiu alguns cuidados extra em casa, com a mulher e os dois filhos, de 5 e 10 anos:

“Ia todos os dias a casa e brincava com eles, porque na UCI estamos muito protegidos; aliás, as infeções entre profissionais foram mais prevalentes nas áreas não-covid. Contudo, tinha uma casa-de-banho só para mim e deixei de dar beijos aos meus filhos nesses dois meses.”



A reportagem completa sobre a USF Corino de Andrade, com declarações de vários outros profissionais, pode ser lida na edição de dezembro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários.

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