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«O papel dos enfermeiros na área respiratória tem sido muito esquecido»

"Não serve de nada medicar bem um doente com o melhor inalador possível se ele não o souber utilizar, o que só é possível através dos ensinos", afirma Cristina Bárbara, diretora do Programa Nacional de Doenças Respiratórias da Direção-Geral da Saúde.

Em entrevista à Just News, a médica considera que "os cuidados diferenciados são finitos e há muitas tarefas realizadas pelo médico que deviam ser executadas pelo enfermeiro de família, especialmente de follow-up, como saber se o doente tomou a vacina anual, se está a aviar adequadamente as receitas, ou se faz bem a inaloterapia".

A questão da literacia é particularmente relevante, até porque "que os doentes economicamente mais desfavorecidos são aqueles que têm menos literacia, logo, eles são os que precisam de mais sessões de educação".

Nesse sentido, "alguém altamente diferenciado em termos de literacia em saúde pode até nem sequer precisar da ajuda do enfermeiro, enquanto outra pessoa e outro cuidador podem precisar de mais intervenções ao longo do ano. Ou seja, o tipo de intervenção tem de ser ajustada às necessidades do doente, sobretudo pela gravidade da doença e pela literacia em saúde."

Face a este diagnóstico, Cristina Bárbara considera que "o papel dos enfermeiros na área respiratória tem sido muito esquecido", mas também faz questão de lembrar que, "na realidade, não há enfermeiros suficientes e essa é uma questão pela qual temos de lutar".


Cristina Bárbara

"Cada inalador é diferente"

O desafio de uma correta utilização do inalador torna-se ainda mais complexo pelo facto de existirem múltiplos dispositivos. "Cada inalador é diferente do outro, pelo que, até para nós, pneumologistas, que lidamos diariamente com eles, se torna desafiante, dada a múltipla variedade de dispositivos existentes", afirma a pneumologista. Assim, "maior dificuldade terá, por isso, um médico de família, que tem um volume de doentes menor".

Nesse sentido, Cristina Bárbara faz questão de salientar o "trabalho exemplar e ímpar que tem sido desenvolvido pelo Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias (GRESP), com a divulgação de vídeos sobre técnicas inalatórias na sua plataforma institucional, que são usados pelos profissionais".

E acrescenta: "Hoje em dia, quando prescrevo um inalador, partilho sempre um vídeo, porque as pessoas estão habituadas a ver no seu dispositivo móvel, e gostam."

Caminhar para uma "legislação de uniformização"

No entanto, e porque "há sempre um novo dispositivo", a especialista considera que "terá de haver uma legislação de uniformização, até para benefício ambiental, porque, atualmente, há uma grande poluição derivado dos plásticos em circulação. Temos de evoluir para uma economia circular de poupança de resíduos e tóxicos para o ambiente".

A médica recorda, aliás, uma situação que muito a surpreendeu quando tomou contacto com esta realidade: "Uma das coisas que inicialmente mais me faziam confusão era a consecutiva eliminação dos dispositivos dos inaladores, a cada nova prescrição, por não haver possibilidade de prescrição de recargas, para a continuidade do tratamento."



GRESP: "um trabalho ímpar a nível nacional"

Questionada sobre qual o grau de preparação da Medicina Geral e Familiar (MGF) para fazer esses diagnósticos, Cristina Bárbara não tem dúvidas: "O médico de família nunca esteve tão bem preparado para lidar com as doenças respiratórias como agora, porque estas patologias entram na agenda dos cursos de Medicina, pelo que, quando o médico se forma, está habilitado a diagnosticar e tratar uma asma, uma DPOC, ou a suspeitar de um cancro do pulmão."

Lembrando que "é impossível formar médicos sem estarem habilitados nestas patologias, que são as mais prevalentes", a pneumologista faz questão de salientar que "o GRESP tem sido um pilar na formação".

Considera mesmo que "o PNDR tem tido esta grande vantagem de estar a ser coadjuvado pelo GRESP, que tem realizado um trabalho ímpar a nível nacional".

O PPR e a esperança em "recuperar o tempo perdido"

E no que diz respeito à referenciação para os cuidados hospitalares? "Apesar de estar muito melhor, não há integração de cuidados, porque durante um longo período de tempo estas entidades trabalharam separadas", afirma a responsável pelo Programa Nacional de Doenças Respiratórias.

Por outro lado, "a prática clínica não acompanhou o avanço da tecnologia", referindo-se "à integração digital dos cuidados, portanto, nós ainda estamos muito centrados na era do telefone, e não temos a integração de cuidados com a agilidade que devíamos".

Na sua opinião, "uma das consequências boas, entre todas as más, da covid-19 foi o mundo ficar interconectado com redes, o que foi uma grande mudança de paradigma no nosso país e no resto do mundo. Ao termos ficado interconectados com a OMS e com o ECDC, ganhámos capacidade de monitorizar as patologias com plataformas informáticas".

No entanto, Cristina Bárbara lamenta continuar a persistir uma dificuldade, a da "integração dos diversos sistemas e plataformas informáticos entre as várias instituições do mesmo e de diferentes níveis de cuidados". E deixa um desabafo: "Tenho esperança que saibamos aproveitar o grande volume de investimento do PRR para esta área e recuperar o tempo perdido."


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