Medicina Interna: Lèlita Santos poderá ser a próxima presidente da SPMI

A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) poderá vir a ter em breve, pela primeira vez, uma mulher a liderar a Direção. As eleições deverão ocorrer numa data próxima do 27.º Congresso Nacional de Medicina Interna, marcado para os últimos dias de maio.

Lèlita Santos, assistente graduada sénior de Medicina Interna do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra é, até ao momento, a única candidata para presidir à SPMI entre 2021 e 2024.

Com competência em Geriatria, sempre se sentiu particularmente atraída pelas áreas da diabetes e das doenças autoimunes e fascinada pela Nutrição. Tanto que o seu doutoramento, no ano 2000, teve como base uma tese intitulada “Micronutrientes, Nutrição Humana e Diabetes Mellitus”.


Lèlita Santos

"Espero que haja mais colegas a candidatar-se, com outras ideias"

Em entrevista à Just News, a médica admite que a ideia de se candidatar à presidência da SPMI nem sequer partiu inicialmente de si, mas logo acrescenta que, a certa altura, começou a achar que poderia dar o seu contributo de uma forma mais ativa para uma Sociedade que conhece tão bem:

"Tomei essa decisão porque acho que tive uma aprendizagem muito boa na Sociedade. Considero que tenho ideias de que, porventura, muitos internistas também comungam e que, no fundo, vêm um pouco no seguimento daquilo que foi protagonizado pelas duas direções anteriores, que eu, aliás, integrei."

Mas faz questão de sublinhar: "Espero que haja mais colegas a candidatar-se, com outras ideias, porque seria seguramente muito interessante o debate que isso originaria."

Lèlita Santos tem de facto acompanhado muito de perto a atividade da SPMI ao longo dos últimos anos. E, se reconhece a importância de existirem "novas ideias, também para que os projetos ganhem outro dinamismo", também destaca igualmente a necessidade de "ser dada continuidade às coisas que estavam a ser bem feitas".

Quanto ao facto meramente curioso de poder vir a ser a primeira mulher eleita, afirma que "é engraçado, até porque nós não tínhamos muitas médicas internistas até há umas dezenas de anos. Agora há muitas e excelentes internistas".



Formação dos internos: experiência única, mas "afunilaram conhecimentos"

Para a vice-presidente da SPMI, e devido à pandemia, a formação dos médicos internos ao longo do último ano merece especial atenção, pois "foi realmente afetada, tanto na Medicina Interna como relativamente às outras especialidades. Foi assim para todos. Este ano, os internos acabaram por afunilar os seus conhecimentos e estudar muito na área do covid."

Tiveram, assim, "um treino intenso nos doentes agudos covid, na área das doenças respiratórias. Eu costumo dizer que não perderam nada porque tiveram uma experiência única, que lhes vai marcar a vida toda, em termos profissionais e pessoais." No entanto, sublinha, "é indiscutível que atrasaram a sua formação".

De acordo com a especialista, "houve muito menos internistas nas enfermarias e muito menos tempo para ajudar, para formar". Lèlita Santos manifesta preocupação pelos internos que agora vão fazer a sua especialidade e que, durante este ano, estando na Medicina Interna, "não viram o doente no global, fazendo poucos diagnósticos multissistémicos".  


Quanto ao Internato de Medicina Interna, Lèlita Santos manifesta apreensão com outra realidade: "Os nossos internos fazem demasiados estágios fora dos serviços de Medicina Interna, o que, se calhar, não é uma mais-valia para a sua formação. Isso é uma coisa que o Colégio da Especialidade de Medicina Interna e a própria Ordem dos Médicos têm que analisar."

E acrescenta: "Penso que, algumas vezes, eles acabam por fazer um pouco o papel do internista que falta nesse serviço, a grande ajuda que determinado especialista precisa do ponto de vista de abordagem geral ao seu doente. O que faz então falta? Mais internistas que deem apoio a essas especialidades ou, se calhar, a constituição de equipas multidisciplinares"".

Na sua opinião, "há estágios que são fundamentais, nomeadamente em unidades de agudos – de Medicina Intensiva, de Cuidados Intensivos Coronários, ou de AVC –, muitas até coordenadas por internistas, quando elas não existem no próprio Serviço de MI." Contudo, "já alguns estágios opcionais não acho que sejam absolutamente essenciais".

Com a pandemia... "a Medicina Interna faz o que sempre fez"

Questionada sobre o papel da Medicina Interna face à pandemia, Lèlita Santos salienta que "tem estado na linha da frente nas urgências, no atendimento aos doentes com suspeita de Covid, nas enfermarias e, em alguns casos, nos próprios cuidados intensivos... Com a falta de intensivistas que se sabe existir, na realidade, a Medicina Interna tem estado integrada em muitas equipas de Medicina Intensiva."

Mas não só. A médica recorda que também nas enfermarias "encontramos a Medicina Interna, mesmo nas não covid". Assim, na sua opinião, torna-se evidente que "tem assumido um papel muito importante. Nota-se mesmo que, em relação às outras especialidades, é agora muito mais reconhecida, considerada imprescindível, nomeadamente, pelos conselhos de administração dos hospitais, o próprio Governo e até a população."

Em jeito de conclusão, Lèlita Santos acaba por afirmar que, "no fundo, a Medicina Interna faz o que sempre fez", ou seja:

"Ver o doente agudo na Urgência e seguir na consulta os casos crónicos mais graves e mais preocupantes, nos vários níveis das suas especificidades, e também, claro, nas enfermarias,  acompanhando os doentes agudos que precisam de estar internados."


"Temos que ser médicos globais e dialogar com os colegas de outras especialidades"

A par da visão holística, que tão bem define a especialidade de Medicina Interna, Lèlita Santos considera ser igualmente necessário os internistas valorizarem a sua visão mais abrangente na relação com outros profissionais:

"Toda a gente já percebeu que os serviços não são estanques, que não têm fronteiras como antigamente. E isso também acontece porque o doente é um doente global e, portanto, nós temos que ser médicos globais e dialogar com os colegas de outras especialidades." 

Até porque, como acresenta, "se a medicina é centrada no  doente, é centrados no doente que nós temos que fazer medicina e não nas especialidades".



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