Hospital de Cantanhede vai plantar jardim terapêutico para utentes e colaboradores

O Hospital Arcebispo João Crisóstomo, em Cantanhede, prepara-se para oferecer aos seus utentes e colaboradores um jardim e uma horta terapêuticas, disponibilizando igualmente o espaço às unidades de saúde mais próximas. Tudo deverá estar operacional antes do final do ano.

O projeto consiste em plantar um jardim e uma horta com fins terapêuticos no terreno fronteiro à entrada principal do Hospital Arcebispo João Crisóstomo. Um dos principais objetivos é acompanhar os doentes na sua reabilitação, tanto cognitiva como motora, através de atividades neste espaço de características inéditas.

A presidente do Conselho Diretivo daquela unidade hospitalar, Diana Breda, 46 anos, está pessoalmente envolvida na concretização da ideia. A Just News conversou com a administradora e com as terapeutas Sara Silva e Inês Cipriano.



“A esmagadora maioria dos utentes que a nós recorrem tem mais de 65 anos e alguns podem sofrer de demência. As componentes das sensações e do cheiro nunca nos abandonam e, no cérebro, ficam muito próximas da zona da memória. Fazem-nos experienciar coisas boas”, lembra Diana Breda.

Por se tratar de uma população rural, os doentes que passam por um período de internamento sentem a falta do contacto com a terra, de tratar dos seus quintais. Juntar a familiaridade que eles têm com a natureza aos aspetos sensoriais de um jardim permite fazer um trabalho “bastante interessante a nível psicológico”, sublinha Sara Silva.

Com 30 anos, é terapeuta e trabalha essencialmente com utentes que apresentam limitação motora ou cognitiva. Frisa a importância de a horta estar mais acessível a todos, porque alguns já não conseguem trabalhar ao nível do chão, e informa que esse aspeto está salvaguardado.

“As tarefas agrícolas costumam ser muito utilizadas no contexto de doença ou de deficiência mental, em instituições de Psiquiatria”, refere, aludindo ao trabalho de investigação que foi necessário empreender para que o projeto resulte. Considera, porém, que neste caso há uma junção de várias perspetivas de acompanhamento: a nível dos sentidos, do tratamento, e da reabilitação. As atividades podem até ser dirigidas aos doentes que se sentem tristes ou frustrados, uma possível consequência da hospitalização.


Sara Silva, Diana Breda e Inês Cipriano

O potencial do espaço verde não se esgota na recuperação psíquica dos pacientes. Inês Cipriano, 27 anos, vê-o como uma “oportunidade” para trabalhar no âmbito do exercício físico aplicado à saúde, mais concretamente na prevenção de patologias cardíacas. Atualmente, é técnica superior de diagnóstico e terapêutica e reforça a Cardiopneumologia do hospital.

Com a construção do jardim terapêutico, pretende-se também oferecer aos cerca de 150 colaboradores do Hospital Arcebispo João Crisóstomo a possibilidade de fazerem as suas pausas ao ar livre, ou até mesmo de ali realizarem algumas reuniões. Prevenir o burnout dos profissionais da instituição é uma das preocupações do Conselho Diretivo, que pretende aproveitar o futuro espaço para intervenções neste âmbito.

“E se os doentes viessem cá fora para estarem com os seus familiares?”

Esta não é a primeira iniciativa da atual administração da unidade hospitalar de Cantanhede no sentido de estar próxima da comunidade local, que abrange aproximadamente 60 mil pessoas. Por exemplo, durante a pandemia, reconheceu-se a importância de manter as visitas aos utentes internados, mesmo em época de confinamento, algo que valeu um prémio da Federação Internacional dos Hospitais.



“E se os doentes viessem cá fora para estarem com os seus familiares? Se calhar até haveria muito mais privacidade, para além de apanharem ar puro. No momento atual, temos a limitação de uma visita por quarto e, nesse caso, a situação poderia ser, se calhar, mais agradável para o doente”, explica Diana Breda. Foi esta lógica de adaptação às adversidades criadas pela covid que ajudou a avançar com a ideia do jardim.

O HAJC sempre foi “da comunidade”, com quem tem uma relação até “bastante afetiva”. A partir de 2007, começou a ter unidades de internamento pertencentes à Rede Nacional de Cuidados Continuados, ou seja, sobre as quais não tinha controlo.

O objetivo do atual Conselho Diretivo -- que entrou em funções em abril de 2020 -- foi precisamente conseguir maior colaboração com os Cuidados de Saúde Primários e a autarquia, por acreditar que houve “um certo afastamento” em relação à população.



Diana Breda considera que a capacidade de intervenção de um hospital isolado pode ser “muito limitada”. Além da proximidade que procura ter com os utentes, a administradora também fala numa tentativa de lhes dar uma “resposta completa”. Isso reflete-se igualmente na forma como se desloca todas as semanas, juntamente com Inês Cipriano, a unidades de CSP de Cantanhede para realizar exames de diagnóstico e terapêutica.

A presidente do Conselho Diretivo do CHTS exprime, além disso, o desejo de que o jardim e a horta terapêutica venham a servir uma comunidade mais vasta, e não apenas os doentes, os profissionais e os visitantes -- algo possível através da cooperação com outras instituições.

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