Farmácia da ULS Matosinhos reorganiza-se para servir melhor a população

A equipa é pequena, desdobra-se nas tarefas diárias e organiza-se para que nada falte aos profissionais e doentes do Hospital Pedro Hispano e das unidades de cuidados de saúde primários que integram o ACeS Matosinhos. “Uma tarefa árdua”, garante a diretora dos Serviços Farmacêuticos, que ainda assim revela que a alegria que ali se vive "é contagiante" e nunca, em mais de 30 anos de carreira, "tinha encontrado um ambiente assim".

“Estou cá há pouco mais de um ano e tem sido uma experiência muito gratificante”, admite Cristina Paiva, que sempre exerceu a profissão de farmacêutica hospitalar no Porto e que reconhece nunca ter imaginado que um dia pudesse vir a fazer parte dos quadros do Pedro Hispano.

“Esta é uma equipa bastante mais reduzida do que aquilo a que eu estava habituada, mas ainda assim extremamente motivada. As pessoas são muito empreendedoras, temos imenso trabalho e recursos limitados”, frisa.


"As pessoas são muito empreendedoras", afirma Cristina Paiva, referindo-se à equipa que lidera

Com 13 farmacêuticos, 11 técnicos de diagnóstico e terapêutica (TDT) e sete assistentes operacionais, segundo a sua diretora, organizar e reorganizar é, para si, uma prioridade, consciente de que é preciso economizar recursos, poupar tempo e rentabilizar todos os meios disponíveis.

"Queremos diminuir sobretudo o retrabalho"


Uma das principais tarefas em curso nos Serviços Farmacêuticos da ULSM prende-se com a reorganização do seu funcionamento. Um passo decisivo foi libertar a Farmácia das questões logísticas, passando essa tarefa para o Departamento de Logística.

“Todas as farmácias hospitalares têm uma forte componente logística, que engloba a distribuição, mas na minha opinião não faz sentido que assim seja”, afirma Cristina Paiva, que concordou com a estratégia do Conselho de Administração da ULSM em criar um Departamento de Logística que abrangesse os vários serviços do Hospital Pedro Hispano, reorganizando uma série de procedimentos.



“Neste momento, por exemplo, já não temos assistentes operacionais, pois, transitaram todos para aquele Departamento, e nós vamos acompanhando o seu trabalho. Com esta alteração, queremos criar rotinas diferentes, com definição de novas rotas, em horários sobreponíveis, rentabilizando os recursos que temos. Queremos diminuir sobretudo o retrabalho”, sustenta Cristina Paiva, referindo-se ao projeto de reorganização em curso, “que trará, certamente, ganhos acrescidos”.

“Temos o universo hospitalar, como qualquer outra farmácia, e depois o dos centros de saúde, de forma que, diariamente, há uma tarefa logística enorme”, salienta a nossa interlocutora, que não esconde a vontade de conseguir colocar um farmacêutico nos centros de saúde. “A fazer reconciliação terapêutica, a ajustar medicação, mas que neste momento não é possível, pois, não temos recursos para tal”, diz.



Nos próximos tempos, Cristina Paiva quer reorganizar o armazém da farmácia, à semelhança do da logística, para que as pessoas possam trabalhar dos dois lados, e garante que daí poderão resultar proveitos muito valiosos. “Parecem coisas pequenas, mas simples mudanças podem trazer grandes resultados”, reforça.

Trabalhar mais perto dos médicos

Outro dos projetos atualmente em curso na ULSM visa aproximar os farmacêuticos dos serviços clínicos. “Estamos a começar a colocar em prática a reconciliação terapêutica. Temos colegas que acompanham as visitas clínicas e que participam nas reuniões de serviço, embora não o façam sempre, por indisponibilidade de horário”, lamenta Cristina Paiva. O objetivo, diz, é ter um farmacêutico nos serviços clínicos de forma sistemática.



“Importa perceber se há interações medicamentosas, se acontecem repetições de medicamentos e se os doentes seguem o seu plano terapêutico. Neste momento, estamos a procurar fazê-lo num serviço de internamento de Cirurgia, mas claro que gostávamos de estender este modelo de funcionamento às unidades de cuidados de saúde primários.

Intervir ao nível do armazenamento e da distribuição 


Marta Lourenço, técnica de diagnóstico e terapêutica, recorda que já em 2009 se procurou reorganizar os Serviços Farmacêuticos da ULSM no que se refere
ao armazenamento e distribuição, com a colaboração de uma empresa de consultadoria, o Kaizen Institute. Este projeto de otimização da logística interna dos Serviços Farmacêuticos valeu à equipa da Unidade Local de Saúde de Matosinhos o Prémio Boas Práticas, atribuído em 2010, pelo Fórum Hospital do Futuro, na categoria Gestão e Economia da Saúde.



Com este projeto, deu-se início a um processo de reorganização com o objetivo de diminuir o desperdício, melhorar o serviço ao cliente e conseguir maior rapidez e menos custos. Numa primeira fase, reorganizou-se o armazém com um novo layout, que facilita a comunicação e minimiza o movimento das pessoas. A consulta externa foi o primeiro local a ser reestruturado e da normalização e gestão visual constam plantas de localização dos produtos, normas de picking e de arrumação.

Este processo foi agora, de certa forma, retomado, até porque, no seu entender, implica “um ciclo contínuo de intervenção”. Daí que tenha sido criado um grupo de trabalho que, para além de Marta Lourenço, integra o farmacêutico João Cocharra e ainda elementos dos setores da Logística e das Compras.

“Começámos pela parte da expedição e esta fase está praticamente concluída. Tem sido um desafio bastante interessante, que foge do âmbito da Farmácia, mas que melhorou os processos que utilizamos no dia-a-dia”, garante.

O passo seguinte prende-se com a receção da mercadoria e inclui a reorganização ao nível do armazém, “de forma a atenuar a falta de espaço que hoje em dia se sente”. Finalmente, naquela que é considerada a última etapa do processo, introduzir-se-ão alterações na distribuição, “uniformizando e criando regras e rotas novas, ajustadas às necessidades atuais”.



Entre o ambulatório e os ensaios clínicos

Carla Campos é responsável pelo setor do ambulatório e pela área dos ensaios clínicos, o que obriga a farmacêutica a uma “grande dinâmica” no desempenho da sua missão. Talvez por isso, as ideias novas não parem de surgir. 



“No ambulatório, temos projetos aprovados e que terão início já em outubro, com o desenvolvimento da consulta farmacêutica. Os recursos humanos não são os suficientes, por isso, iremos proceder ao agendamento da cedência de medicação aos doentes. Isso tornará mais fácil a gestão de stocks, conseguindo-se, desta forma, fazer um melhor acompanhamento do doente no que diz respeito, por exemplo, a eventuais efeitos secundários, à adesão à terapêutica, ou a possíveis interações”, explica Carla Campos.

Ainda no âmbito do ambulatório, a criação e a aprovação do denominado Cartão de Medicação do Doente permitirá um importante contributo para o bom êxito da reconciliação terapêutica.

Relativamente aos ensaios clínicos, a farmacêutica explica que essa é “uma área que tem aumentado exponencialmente, trazendo vantagens para os próprios doentes, que podem beneficiar de tratamentos inovadores, mas igualmente de reconhecimento para a instituição e para os profissionais de saúde que os desenvolvem”.

“Este crescimento tem-se visto principalmente na área da Oncologia. Atualmente, estão em curso mais de duas dezenas e meia de ensaios e só com uma equipa competente e motivada se torna possível desenvolver estes projetos e vencer os desafios propostos”, afirma Carla Campos.






A reportagem pode ser lida na edição de outubro do Hospital Público.

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