Consulta Multidisciplinar de Hipertensão Arterial da ULSEDV permite dar resposta mais eficaz

“O doente sente-se valorizado ao saber que o seu caso é analisado por especialistas de várias áreas”, comenta Heloísa Ribeiro, a internista responsável pela Consulta Multidisciplinar de Hipertensão Arterial da Unidade Local de Saúde de Entre Douro e Vouga (ULSEDV ). Agregada à Consulta de HTA Sistémica, que aquela médica de Medicina Interna coordena, é ali que têm origem os casos que semanalmente são apresentados na consulta de grupo para discussão.

A grande mais-valia do projeto está no facto de se conseguir, com esta articulação, acelerar e otimizar o processo de diagnóstico, essencial para possibilitar uma decisão terapêutica mais adequada e eficaz.


Faz no próximo mês de julho 5 anos que foi oficialmente criada no então Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV) a Consulta de Hipertensão Arterial Sistémica, integrada na Medicina Interna. No entanto, embora não estando a mesma, até então, formalizada, a verdade é que aquele Serviço já assegurava uma consulta focada nessa patologia.

Heloísa Ribeiro

Consulta Multidisciplinar desenvolve-se paralelamente à Consulta de HTA Sistémica


Heloísa Ribeiro, 39 anos, chegou ao CHEDV em 2011, para fazer o internato do Ano Comum, tendo-se verificado a circunstância de, no âmbito do seu estágio de MI, ter acompanhado a médica Luísa Moreira. Para além de fazer a consulta de HTA, esta internista integrava, na altura, os Corpos Sociais da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), que já há alguns anos promovia, com reconhecido êxito, a Hypertension Summer School.

Incentivada a participar nesse curso intensivo focado na investigação e clínica da HTA e risco cardiovascular, Heloísa Ribeiro haveria de ser quem obteve a melhor classificação, o que lhe valeu, como prémio, um estágio no Hôpital Européen Georges-Pompidou, em Paris.

Seguiram-se mais 5 anos de formação, em que, como não podia deixar de ser, passou pela Consulta de HTA que então existia no Hospital de São Sebastião, obtendo o título de especialista em Medicina Interna em 2017.

Atual presidente eleita da SPH, e preparando-se para assumir a presidência em março de 2027, Heloísa Ribeiro explica que a criação formal, por parte do Conselho de Administração, da denominada Consulta de Hipertensão Arterial Sistémica aconteceu em julho de 2021.

Recorda que o arranque “foi um pouco a meio-gás” porque escassos meses depois ocorreria uma nova onda de covid-19 que veio, como se sabe, condicionar bastante a normal atividade hospitalar. “Mas 2022, 2023 e 2024 foram anos de muito crescimento, e 2025 também! Temos tido mais doentes, o que se reflete tanto na consulta individual de cada uma de nós como na consulta de grupo”, refere.


Mariana Santana, Andreia Teixeira, Anabela Giestas, Heloísa Ribeiro, Fernando Pinto, Sílvio Almeida e Diana Dias


Convém esclarecer que a Consulta Multidisciplinar de HTA começou a funcionar praticamente na mesma altura, “desenvolvendo-se paralelamente”, diz Heloísa Ribeiro, acrescentando: “Trazemos doentes da nossa consulta para discutir, o que nos permite, por exemplo, ao nível da Cardiologia e da Endocrinologia, decidir com mais rigor quais os exames complementares de diagnóstico que fazem sentido serem solicitados para maior benefício no seguimento de determinado doente.”

Com um horário limitado que, regra geral, permite que sejam analisados não mais do que dois a três casos semanalmente – às segundas-feiras, logo ao princípio da tarde –, a coordenadora descreve algumas situações com que o cardiologista Fernando Pinto tem sido confrontado:

“Há casos em que surgem dúvidas na interpretação de alterações descritas no ecocardiograma, em que questionamos se tal se deve a uma lesão de órgão mediada pela hipertensão ou se há indicação para completar o estudo para excluir outras causas. Da mesma forma, a abordagem diagnóstica de doentes com quadros menos típicos de dor torácica, por exemplo, também é discutida com a especialidade.”

“É uma mais-valia contar com o apoio de um cardiologista que possui muita experiência e que tem estado desde sempre muito ligado à HTA”, frisa.


Embora a Consulta Multidisciplinar de HTA não seja, obviamente, aberta aos utentes cujos casos são ali debatidos, “eles acabam por ter conhecimento de que a mesma ocorre”, sublinha Heloísa
Ribeiro, prosseguindo: “Ao saberem que nós discutimos a sua situação com colegas de outras especialidades, sem sequer terem que se deslocar ao hospital, sentem-se muito valorizados e isso nota-se quando depois falamos com eles.”

Importa referir que a proveniência dos doentes atendidos na Consulta de HTA Sistémica é diversa, com destaque, desde logo, para os cuidados de saúde primários, o Serviço de Urgência, o Internamento (principalmente MI) e a Consulta Externa, nomeadamente de Cardiologia, Medicina Interna, Neurologia e Obstetrícia.


“A divulgação de que a Consulta existe é feita internamente, aproveitando as sessões formativas promovidas no Serviço de Medicina Interna, mas abertas aos colegas de outras áreas, por exemplo, para apresentar novas guidelines para o tratamento da hipertensão. É sempre conveniente recordar quais são os critérios de referenciação para a Consulta de HTA Sistémica”, afirma Heloísa Ribeiro.


Sessão com profissionais dos cuidados de saúde primários


A médica salienta o empenho contínuo no estreitar da relação com os CSP e no esclarecimento da população em geral sobre o que é a hipertensão e como se pode prevenir. Essa sensibilização já tem incluído a realização de rastreios, que têm lugar no átrio principal do Hospital de São Sebastião, habitualmente durante a Semana da Hipertensão, assinalada em maio, uma iniciativa que tem contado com o patrocínio científico da SPH.




O átrio principal do Hospital de São Sebastião tem sido utilizado para realizar ações de sensibilização dirigidas à população em geral

“Considero que este modelo de consulta tem funcionado muito bem”


Fernando Pinto é cardiologista no Hospital de São Sebastião desde que o mesmo foi inaugurado, logo nos primeiros dias do ano de 1999. Chegou à instituição com Luís Martins, para abrir o Serviço de Cardiologia, sob a direção deste último.

O especial interesse pela área da hipertensão era algo comum a ambos, o que levou rapidamente à criação de uma consulta dedicada a essa patologia, que foi assegurada durante muitos anos pelos dois médicos.

Com a saída de Luís Martins, a quem Fernando Pinto sucedeu no cargo de diretor do Serviço de Cardiologia, assumindo essa responsabilidade entre 2019 e 2020, deixou de ser possível acompanhar todos os doentes com hipertensão que eram referenciados para o hospital, tendo sido criada uma consulta estruturada de Hipertensão Arterial liderada pela Medicina Interna.

Conforme acordado entre os dois serviços, Fernando Pinto (atualmente, o único cardiologista do seu Serviço dedicado à HTA) integrou, desde o início, a Consulta Multidisciplinar. Dá o seu contributo “para ajudar a resolver algumas questões específicas da Cardiologia, nomeadamente, valorizar as lesões de órgão-alvo a nível do coração, como a cardiopatia hipertensiva, a hipertrofia ventricular esquerda ou a disritmia”.

Mas também, admite, para ajudar, com a sua experiência na área, “a encontrar as melhores soluções/orientações para alguns dos casos mais complexos”. Como sublinha o nosso entrevistado, “atualmente, as consultas de HTA hospitalares servem para resolver situações mais complexas, até porque a maioria dos doentes é tratada, e bem, nas suas unidades de cuidados de saúde primários”.

“O médico de família referencia para o hospital quando tem maior dificuldade em controlar uma HTA, quando é necessário um estudo complementar, nomeadamente em busca de causas secundárias para essa hipertensão, ou para esclarecimentos relacionados com a resposta a determinados fármacos”, especifica.



A inclusão da Endocrinologia na equipa é igualmente, na sua opinião, fácil de entender, “porque os colegas têm um papel muito relevante nas situações em que se suspeita que a HTA é de causa endócrina, contribuindo para a confirmar ou para a excluir”.


O cardiologista vai mais longe, adiantando que “seria muito interessante poder contar com o envolvimento de outras especialidades nesta Consulta Multidisciplinar, pois, a HTA, para além de ser transversal a todos os grupos etários e estratos sociais, está igualmente associada a uma série de comorbilidades crónicas”. Refere a Nefrologia, “que, infelizmente, este hospital não tem”.

E a Ginecologia/ Obstetrícia, afirmando: “São habitualmente os colegas que tratam a HTA durante a gravidez, mas pode ser relevante atuar de alguma forma antes. E, sobretudo, fazer o seguimento posterior quando a mulher desenvolve hipertensão nesse período, uma vez que tem uma probabilidade muito maior de vir a ter complicações. Certamente que, a médio prazo, essa articulação virá a concretizar-se.”


Fernando Pinto

“Considero que este modelo de consulta tem funcionado muito bem. Nós reunimos semanalmente, discutimos os casos que colocam maiores dificuldades no controlo da pressão arterial e/ou na interpretação de eventuais alterações nos órgãos-alvo”, afirma Fernando Pinto, prosseguindo:

“Uma vez ajustadas as terapêuticas ou realizados aqueles exames complementares mais difíceis de fazer nos CSP, como sucedia com a MAPA até há bem pouco tempo, os doentes acabam por ser ‘devolvidos’ ao seu médico de família, ficando sempre a porta aberta para uma reavaliação se e quando for considerada necessária.”

O cardiologista faz questão de destacar que “uma mais-valia relevante” da Consulta de HTA Sistémica assegurada pela Medicina Interna “reside no facto de possuir uma equipa de enfermagem, que tem um papel fundamental junto dos doentes, nomeadamente, no que respeita aos ensinos e à promoção de um estilo de vida mais saudável”.

“Os dados que a Dr.ª Heloísa Ribeiro tem apresentado acerca da atividade dessa Consulta mostram que tem contribuído, de forma decisiva, para que os doentes hipertensos da área de influência da ULS de Entre Douro e Vouga tenham um acompanhamento mais adequado. Verifica-se que existe uma relação muito estreita com os médicos de família, que muitas vezes referenciam especificamente porque têm uma dúvida muito concreta, ou porque necessitam que seja realizado um determinado exame”, salienta.


A reportagem completa pode ser lida na edição de fevereiro 2026 do Jornal Médico.

Imprimir


Próximos eventos

Ver Agenda