Consulta de Terapia Familiar na USF Alvalade «ajuda a resolver conflitos, que se agravaram»

Um tapete no chão, algumas cadeiras à volta e um pano colorido numa mesa com alguns objetos decorativos ajudam a tornar menos presente a ideia de que se está num gabinete médico. Acresce ainda a janela com vista para o jardim, onde até os pássaros se podem ver a pousar nos ramos das árvores.

É este o ambiente, que se quer mais descontraído e envolvente, onde as famílias têm a Consulta de Terapia Familiar, na recente USF Alvalade, situada no Parque da Saúde de Lisboa, espaço onde se encontram também, por exemplo, a sede do Infarmed ou o Hospital Júlio de Matos.



"Ajudar as famílias a alcançar níveis mais adaptativos e satisfatórios da vida"

Criada em 2014 pelo médico de família Nelson Calado, que integra a atual equipa da USF Alvalade, na consulta dá-se resposta a todas as unidades funcionais do ACES Lisboa Norte. Terapeuta familiar e interventor sistémico, não trabalha sozinho e conta com o apoio de outros terapeutas, como uma colega especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) e psicólogos. Dos diferentes tipos de intervenção familiar, optou-se pela abordagem sistémica.

“A consulta insere-se na área da intervenção familiar, nos cuidados de saúde primários, acompanhando famílias, ao longo do seu ciclo de vida, nas mudanças decorrentes de acontecimentos de vida, promovendo o crescimento emocional e o desenvolvimento do bem-estar individual e familiar”, explica o médico, que há muito se dedica a esta área ou não tivesse tido sempre um gosto especial pela Saúde Mental e por tudo o que lhe diga respeito.

Em termos práticos, "é um espaço para trabalhar mudanças que ajudem as famílias a alcançar níveis mais adaptativos e satisfatórios da vida. Como terapia de ação, pretende-se que ocorram mudanças no funcionamento da dinâmica do sistema familiar, de forma a estimular o crescimento psicossocial de cada membro”.


Nelson Calado

"Uma postura colaborativa de interesse genuíno e honestidade"

Na sua grande maioria, os utentes referenciados pelos médicos de família do ACES são casais que precisam de ajuda, mas pode também ir apenas uma mãe com uma filha. Tudo depende da necessidade. Os problemas mais comuns são as dificuldades de comunicação, as famílias com filhos adolescentes ou pequenos, que não conseguem gerir os desafios diários ou a doença crónica.

“A cronicidade implica, inevitavelmente, uma adaptação, quer para a pessoa que está doente como para os restantes membros da família, e o nosso papel é ajudá-los a encontrar estratégias para lidar com essa nova fase da vida”, afirma Nelson Calado.


As metodologias utilizadas na consulta não assentam apenas na linguagem verbal, mas também muito na não-verbal, daí que se recorra a determinadas atividades, que podem passar por “estátuas humanas” ou por panos bem coloridos, ou até pelo tapete, que simboliza a linha da vida. “A consulta utiliza um conjunto de técnicas fundamentadas nos modelos teóricos da terapia sistémica e familiar, além das características pessoais dos terapeutas envolvidos, através de uma postura colaborativa de interesse genuíno e honestidade face às problemáticas das famílias”, especifica.

Pandemia levou ao agravamento dos conflitos

As referenciações para esta terapia adensaram-se mais com a pandemia, sobretudo no período a seguir ao confinamento geral: “Os conflitos agravaram-se consideravelmente, apenas pontualmente houve quem acabasse por ver neste tempo uma oportunidade de estreitar laços.”

O responsável defende assim uma maior aposta na terapia familiar nos CSP porque mesmo antes do confinamento já várias IPSS queriam estabelecer protocolos. No seu entender, “isso é bem revelador de que existe uma necessidade! Mesmo como médico de família, tenho plena noção de que muitas das queixas dos utilizadores frequentes têm por detrás problemas em casa”.



As causas subjacentes nos conflitos são multifatoriais e têm habitualmente como pano de fundo a nova dinâmica da família atual, que deixou de ser nuclear e para a vida toda. “Existem muitos fatores psicossociais, como filhos de pais e mães diferentes a conviverem no mesmo espaço, um menor suporte da família alargada, a carga horária laboral, uma doença crónica... São os mais variados e o nosso papel é ajudar a identificar o que é disruptivo para se conseguir encontrar a melhor estratégia de adaptação à nova realidade”, observa Nelson Calado.

"Esta Consulta devia ser mais valorizada a nível nacional"

Quem também participa na Consulta de Terapia Familiar é Alda Morgado, uma das psicólogas do ACES Lisboa Norte e que vê nesta interligação com o médico de família um pilar fundamental. “É uma enorme mais-valia contar com um especialista em MGF, que tem um conhecimento mais global dos utentes”, reconhece.

Estando desde 1998 no Centro de Saúde do Lumiar, onde chegou para abrir o Núcleo de Psicologia, considera que "esta Consulta devia ser mais valorizada a nível nacional". E acrescenta: “Como psicóloga, apercebia-me muitas vezes que os sintomas estavam muito associados a conflitos relacionais, daí que esta intervenção com o apoio do médico de família seja essencial”, diz.

E acrescenta: “A nossa postura não é a de sermos os expertises, mas um casal terapêutico, com muitas diferenças, que se admira e que consegue trabalhar em conjunto. As famílias apercebem-se disto e veem como é possível haver uma boa relação nos opostos.”


Nelson Calado e Alda Morgado

Admite, inclusive, que todos aprendem uns com os outros: “Eu, o Nelson e os outros terapeutas vamos buscar muito às famílias, o que é bastante enriquecedor.” Quer Alda Morgado como Nelson Calado esperam que "a terapia familiar venha a ser algo comum a nível nacional".


“Este tipo de intervenção não tem que ser exclusiva de uma consulta, basta que o médico de família tenha formação para poder aplicar os seus conhecimentos logo numa fase inicial. A consulta específica deve cingir-se apenas às situações mais complexas”, defende o médico e terapeuta familiar, que se apresenta como interventor sistémico.

Os seus sonhos não se ficam por aí. Sendo voluntário na Associação ILGA Portugal (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), desde 2010, espera que os casais do mesmo género também vejam na terapia familiar uma forma de enfrentar os seus problemas:

“Estão mais desamparados e não costumam procurar ajuda porque ainda não veem os centros de saúde como um local de acolhimento. Penso que se deveria recorrer a algumas estratégias de comunicação que os ajudassem a perceber que não são discriminados, por exemplo, colocando na sala de espera uma bandeira arco-íris...”


Contrariamente aos casais heterossexuais, os principais obstáculos na vida conjugal estão relacionados com o “coming out” de um dos cônjuges ou das respetivas famílias. “É fundamental fazer com que se sintam integrados e aceites.”

Abertura em plena pandemia

Quem está muito satisfeita por manter esta resposta na nova unidade é Mariana Freire, a sua coordenadora. Após ter integrado a equipa em 2016, como recém-especialista, enfrentou nos últimos tempos o desafio da transição de UCSP Alvalade para USF Alvalade em plena pandemia, mais precisamente em 30 de setembro de 2020.

Mas o que poderia ser um grande cavalo de batalha acabou por se transformar numa vantagem: “Tem sido mais fácil mudar procedimentos porque as adaptações e as alterações são prática corrente por causa da covid. Os nossos utentes vão, assim, habituar-se mais facilmente”, diz.


Mariana Freire

Nos próximos tempos, vai-se manter o foco na consolidação do projeto da USF, não descurando todas as restantes tarefas próprias de uma unidade de cuidados de saúde primários, que está ainda sobrecarregada com tudo o que diz respeito à covid-19.

“Nunca estivemos parados. Atualmente, os nossos doentes escolhem se querem uma consulta presencial ou uma teleconsulta e assim nos vamos manter. A ideia de que estamos parados não faz qualquer sentido”, exclama a nossa interlocutora.


A apresentação da candidatura a modelo B e o desafio da acreditação serão projetos a mais médio e longo prazo. Até lá, a equipa vai querer apostar na formação, esperando vir a ter mais internos, que também têm oportunidade de acompanhar uma família na Consulta de Terapia Familiar.



A reportagem completa sobre a USF Alvalade pode ser lida na edição de janeiro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários.

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