Criação da primeira Unidade de Asma Grave certificada do país. «É o nosso grande projeto!»

Criar a primeira Unidade de Asma Grave certificada do país é a grande ambição do Serviço de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN), que tem agora como diretora a médica Elisa Pedro.

Os especialistas calculam que a asma afete 6,8% da população portuguesa, ou seja, cerca de 700 mil pessoas. O agravamento da doença ou a falta de resposta à terapêutica acaba por fazer com que 5 a 10% delas sofram de asma grave.

“É uma condição clínica muito impactante, que leva a várias idas à Urgência do hospital e causa uma grande incapacidade, daí que seja realmente fundamental haver uma consulta específica”, considera Ana Mendes, coordenadora da Consulta de Asma Grave do Serviço de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte.


Ana Mendes

“Nós apercebemo-nos, sobretudo os elementos que se dedicavam mais a esta patologia respiratória, que era necessário dar uma resposta de maior proximidade e diferenciação a estes utentes, que vêm da região de Lisboa e Vale do Tejo, mas também do Alentejo, do Algarve e da região Centro do país”, refere a médica, em entrevista à Just News. 

Imunoalergologista há mais de 20 anos, destaca os grandes avanços na área: “Há muitas terapêuticas para esta doença e, no caso da asma grave, já é possível dar uma resposta mais personalizada. Há cerca de 10 anos tínhamos os corticosteroides sistémicos, com vários efeitos secundários e que não permitiam proporcionar a qualidade de vida que atualmente se consegue disponibilizar com os medicamentos biológicos, como os anticorpos monoclonais.”

E dá um exemplo: “Temos um doente que recorria ao Serviço de Urgência quase diariamente e que, após um ano de tratamento com estes novos fármacos, não precisou, entretanto, de voltar à Urgência.” São estes sinais de esperança que dão ainda mais força a Ana Mendes e ao seu grupo para lutarem pela criação de uma Unidade de Asma Grave no CHULN. “É o nosso grande projeto, que está um pouco atrasado por causa da pandemia, mas que esperamos levar avante muito em breve”, promete.



Unidade de Asma Grave e a "abordagem multidisciplinar do doente"

A consulta especializada e um hospital de dia já existem. Faltam, contudo, alguns detalhes para a concretização do sonho de criar uma unidade, “sobretudo um espaço físico que permita uma abordagem multidisciplinar do doente, sem que este tenha que se deslocar a diferentes serviços do hospital. A contingência provocada pela pandemia impediu que se tivesse avançado já no sentido da concretização do projeto, até porque o Hospital de Santa Maria foi designado de primeira linha no atendimento a doentes com covid-19”.

A concretização deste projeto permitirá dar uma resposta mais eficaz às necessidades dos doentes, mas também valorizar o trabalho dos profissionais, “permitindo partilhar boas práticas, além de ser uma forma de dar formação a colegas de outros hospitais que também queiram avançar com uma unidade deste tipo”.

A criação de uma unidade com estas características implica, automaticamente, a sua certificação, estando estabelecido que esse reconhecimento só poderá ser concedido por outra unidade (que Portugal ainda não tem), ou por uma sociedade médica de Imunoalergologia, se tiver de se recorrer a uma entidade de outro país, como é o caso.

A nossa vizinha Espanha já tem várias unidades dedicadas a esta patologia, esperando os responsáveis de Santa Maria poder contar com toda a experiência e conhecimento dos colegas espanhóis. Aliás, está previsto recorrer à Sociedade Espanhola de Alergologia e Imunologia Clínica (SEAIC) na obtenção da tão desejada certificação.

Acrescente-se, a esse propósito, que Ana Mendes tem, na sua Consulta de Asma Grave, um elemento cujo apoio é relevante no contacto com a SEAIC. Com efeito, Estrella Alonso y Gregorio é espanhola e membro da SEAIC, podendo assegurar uma ligação mais próxima àquela Sociedade.



Estrella Alonso y Gregorio, Cristina Fontinha, Elisa Pedro e Ana Mendes

Estando no CHULN desde o início da sua carreira, a médica nunca deixou de manter o contacto com o seu país de origem, considerando ser “muito importante haver partilha de experiências”.

E acrescenta que Espanha “tem várias unidades dedicadas à asma grave, sendo visíveis os benefícios para quem tem de viver com uma patologia que é muito incapacitante – a nível pessoal, social e profissional – e que, quando tratada de forma adequada e personalizada, permite à pessoa viver bem”.


Asmáticos com patologia controlada não terão mais predisposição para a infeção por covid-19 


Devido ao eclodir da pandemia, desde abril que Ana Mendes se divide entre os dois hospitais do CH Universitário Lisboa Norte. Isso acontece porque, apesar de a Consulta de Asma Grave se manter em Santa Maria, fisicamente na zona das Consultas Externas, o Hospital de Dia (onde se administra a terapêutica monoclonal) foi transferido para o Pulido Valente.

“Embora apostemos nas teleconsultas, estes doentes não podem estar muito tempo sem vigilância médica, daí que tenhamos criado circuitos que permitem a sua vinda ao hospital sempre que é necessário avaliar a sua situação clínica”, sublinha a imunoalergologista.

A gestão das consultas tem passado também pelo adiamento daquelas cujos casos são acompanhados com regularidade no Hospital de Dia: “Esses doentes vêm fazer o tratamento e têm sempre acompanhamento médico. Os que fazem a terapêutica no domicílio têm mesmo de ser observados para se evitar casos de descompensação e de agudização de sintomas, com todas as repercussões que daí advêm em termos de qualidade de vida e até de prognóstico.”

Sendo pacientes de elevado risco, Ana Mendes diz que se tem procurado transmitir-lhes, através de contacto telefónico, que não há razão para terem receio: “Os doentes mostram-se assustados, competindo-nos explicar que a segurança está salvaguardada. Aliás, a transferência do Hospital de Dia para o HPV aconteceu também por esse motivo.”



Investir na especialização em Enfermagem

Há 10 anos que a enfermeira Cristina Fontinha está ligada a este Hospital de Dia, que serve a Imunoalergologia e a Reumatologia. Trabalhando inserida num grupo multidisciplinar, lembra que o principal papel da Enfermagem não se resume aos tratamentos, pois, “também é muito importante promover a educação para a saúde e assegurar a adesão terapêutica”.

Uma tarefa que pode, de alguma maneira, ser facilitada com o sentimento de proximidade e de confiança por parte dos doentes, para quem “o Hospital de Dia é a sua segunda casa. Cabe ao enfermeiro estabelecer uma relação empática, que crie confiança na equipa, para que as pessoas possam expor, sem receios, as suas dúvidas em relação à doença ou até sobre outros aspetos da vida pessoal e de âmbito social”.


Cristina Fontinha

“Assim, é inevitável que uma relação que começa por ser terapêutica, com o passar do tempo, se torne mais pessoal”, afirma Cristina Fontinha.

A sua presença de uma década neste Hospital de Dia permitiu-lhe dedicar-se mais à patologia respiratória: “Sendo uma área tão específica, tenho que apostar na formação, quer através de pesquisas feitas por minha própria iniciativa, quer participando em congressos e outras reuniões científicas. É crucial que o enfermeiro tenha bem presentes os sinais e sintomas associados à asma grave e que conheça a história do doente, de forma a detetar alterações no seu quadro clínico.”

Apesar da sua experiência, Cristina Fontinha assegura haver sempre novidades: “Os avanços terapêuticos na asma grave são constantes e o enfermeiro tem que estar atualizado sobre os novos fármacos, as suas indicações e contraindicações, preparação, cuidados de administração, efeitos secundários imediatos e/ou tardios, para que preste a melhor assistência.”


Face a esta especificidade, acredita ser preciso investir na especialização em Enfermagem: “É muito importante adquirir competências. É uma mais-valia para a pessoa que vive com doença crónica poder ter um enfermeiro de referência que o acompanhe ao longo dos anos.”



“A medicina moderna implica trabalhar em rede, partilhando experiências e boas práticas”

Elisa Pedro está no Serviço de Imunoalergologia de CHULN desde que o mesmo foi criado, em julho de 2006, tendo integrado ainda a equipa da Unidade que o antecedeu. “Ainda me recordo que o Hospital de Dia era apenas uma sala pequena”, conta a diretora, que sucedeu ao seu colega Manuel Barbosa no cargo, na sequência da jubilação deste, em fevereiro último.

A médica anseia pela criação da Unidade de Asma Grave: “Será, de facto, algo muito positivo para os doentes, em primeiro lugar, mas também para os profissionais.”


A acreditação, assegurada pela SEAIC, também será uma vantagem para o Serviço: “A medicina moderna implica trabalhar em rede igualmente a nível internacional, partilhando experiências e boas práticas.”


Elisa Pedro

Estando o CHULN integrado no Centro Académico de Medicina de Lisboa, a criação da Unidade faz ainda mais sentido: “Para além da atividade assistencial, temos também um papel fundamental na formação pré e pós-graduada, assim como na investigação clínica e laboratorial, em colaboração com o Laboratório de Imunologia Clínica da FMUL/IMM, além das publicações em revistas de referência.”

Elisa Pedro é a presidente cessante da SPAIC – Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, tendo esse cargo sido, entretanto, assumido, em dezembro passado, por um outro especialista do Hospital de Santa Maria: Manuel Branco Ferreira. 



A reportagem completa pode ser lida na edição de setembro/outubro do jornal Hospital Público.
Hospital Público - jornal distribuído nos serviços e departamentos de todas as unidades hospitalares do SNS. 
Porque as boas práticas merecem uma ampla partillha entre profissionais!

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