«A grande maioria dos alunos de Medicina chega ao fim do curso sem saber o que é uma USF»
No próximo dia 1 de abril, uma quarta-feira, é bem provável que o médico de família Bruno Moreno apareça na USF Coimbra Sul com um bolo de aniversário. E porquê? Porque fará quatro anos que começou a trabalhar nesta Unidade. “Aqui, em Marco dos Pereiros, ou lá em baixo, em Santa Clara, faço sempre questão de comemorar esta data”, afirma.
Fizeram-lhe o convite na altura em que se percebeu ser necessário arranjar alguém para ocupar o lugar de uma médica da equipa que estaria de saída devido a um problema de saúde complicado. Foi-lhe dito que “precisavam de uma pessoa com alguma dinâmica e que gostasse da componente da gestão, com o objetivo de integrar o Conselho Técnico, ou até mesmo, eventualmente, de assumir a coordenação, quando tal fosse necessário”.
Feita a entrevista, entre meia dúzia de candidatos, acabou mesmo por ser ele o selecionado. Contudo, como adiante se verá, o processo de entrada na USF Coimbra Sul demorou algum tempo porque a colega que iria substituir, em Marco dos Pereiros, estava de baixa e, portanto, ainda fazia parte do quadro de profissionais da Unidade.
Entretanto, uma alteração significativa que aconteceu terá sido, muito provavelmente, a que resultou da decisão de tornar menos confuso para os utentes o horário de funcionamento da Unidade, com a sede diariamente aberta das 8h às 20h e a extensão apenas durante as manhãs.
“Torna muito mais fácil, por exemplo, gerir o sistema de intersubstituição”, aponta o médico, destacando, contudo, o problema que se coloca quando há uma grande concentração de profissionais em Santa Clara. Com efeito, o edifício foi concebido para acolher duas USF, mas o facto é que a Unidade de Saúde Pública também ali está instalada, tal como algumas valências da URAP – Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados.
Ora, o que se verifica é que “absorvem muito espaço, já de si escasso para comportar o funcionamento de todas essas valências e originando, por vezes, no que à nossa equipa diz respeito, alguns constrangimentos na partilha de gabinetes médicos e de enfermagem e até com implicações relativamente às condições necessárias para a formação dos médicos internos”.
No dia em que esta reportagem foi realizada, Bruno Moreno dava uma especial atenção a duas estudantes de Medicina: Mariana Correia (5.º ano), numa “visita” de 2 dias, e Filipa Silva (6.º ano), a cumprir um estágio de 2 meses.
“O que eu verifico é que a grande maioria dos alunos de Medicina chega ao fim do curso sem saber, ainda, o que é uma USF. Portanto, interrogo-me como é que nós podemos conseguir atrair gente para a MGF quando caminham para o final da sua formação em Medicina sem saber o que é a Reforma dos CSP e o que nós, médicos de família, efetivamente fazemos”, comenta, concluindo: “As faculdades de Medicina têm de fazer uma aposta clara na Medicina Geral e Familiar.”
Pode-se bem dizer que Bruno Moreno está particularmente sensibilizado para este tipo de questões devido ao seu envolvimento na Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar (USF-AN), de que é o atual vice-presidente. Iniciou, em 2025, um 2.º mandato de 3 anos nesse cargo, integrando uma Direção que continua a ser presidida por André Biscaia.
“Médicos, enfermeiros e secretários clínicos – na USF-AN somos todos iguais, independentemente da classe profissional, afinal, muito à semelhança de como funciona uma unidade de saúde familiar”, frisa, para logo acrescentar:
“Julgo que muita gente não faz ideia do tempo que despendemos diariamente na discussão dos mais variados temas que nos dizem respeito e na resposta às solicitações dos nossos associados, partilhando experiências e ajudando as USF, das mais jovens às mais experientes, a procurar criar rotinas ou a acelerar procedimentos, por exemplo.”
Bruno Moreno “descobriu” a USF-AN em 2010, quando iniciou a especialização em MGF na USF Serra da Lousã. Como a sua orientadora de formação ficou em licença de maternidade, acabou por passar quase todo o 1.º ano do internato sob a alçada de João Rodrigues, médico muito ativo na Associação, a que acabaria por vir a presidir em 2015.
Mas voltemos mais atrás no tempo para perceber qual o percurso de vida de Bruno Moreno, que nasceu em Bragança a 20 de outubro de 1983 e onde viveu até aos 17 anos. Ainda iniciou Medicina Dentária no Porto, em 2001, mas repetiu os exames nacionais e em 2002 entrou, em Coimbra, no curso que queria mesmo: Medicina.
O internato do Ano Comum, feito nos CHUC, em 2009, foi decisivo para pôr de parte três das quatro especialidades que “selecionara”: a Medicina Interna (“Cada vez mais exclusivamente geriátrica e virada para a doença crónica e o internamento...”), a Cirurgia Geral (“Para resolver obstipações, apendicites e hérnias encarceradas...”) e a Ortopedia (“Não fez o mínimo sentido que tivesse pensado nisso...”). Restava a MGF (“Na verdade, já era o que verdadeiramente eu queria quando terminei o curso...”).
É relevante informar que quando chegou à Lousã para fazer o internato de MGF foi o concretizar de um desejo que surgiu quando, pouco tempo antes, ali estagiou durante 3 meses durante o Ano Comum. Nessa altura, teve oportunidade de conhecer por dentro a Unidade que havia sido fundada por João Rodrigues no final de 2007 e que este coordenaria até partir para outro projeto, no verão de 2018.
Tendo terminado a sua formação em abril de 2014, seis meses depois, o concurso colocou Bruno Morenona UCSP Oliveira do Bairro. Reconhece que “foi um choque”, pois, “vinha de 4 anos numa USF modelo B”. Lembra-se bem que começou a trabalhar a 1 de outubro e que haveria de casar a 18 do mesmo mês, mas, entretanto, já tinha desafiado o coordenador da Unidade, Fernando Martins, a avançar para a criação de uma USF. Nunca mais se esqueceu da resposta: “Oriente isso, eu vou estar cá consigo!”.
A USF Vale do Cértima, que ficou com o nome do rio que banha Oliveira do Bairro, só viria a abrir em setembro de 2018, quatro anos depois. “Foi o processo mais desafiante da minha vida”, confessa, referindo-se a um projeto que diz ter sido de “construção muito progressiva, bastante sólida” e que “neste momento é modelo B, cresceu, tem mais ficheiros”.
Resta esclarecer que, entre a saída da USF Vale do Cértima e a entrada na USF Coimbra Sul – condicionada pela razão que já se sabe –, o médico teve de aguardar quase um ano na extensão de Ançã da UCSP Cantanhede. “Eu tive sempre muita sorte nos sítios por onde passei. Adorei estar em Ançã”, garante. 
A reportagem completa à USF Coimbra Sul foi publicada na edição de janeiro 2026 do Jornal Médico.


