«É fundamental que os médicos dos lares tenham formação em Geriatria»

“A atual pandemia veio provar como é fundamental que os profissionais de saúde, nomeadamente os médicos das estruturas residenciais para idosos (ERPI), tenham formação em Geriatria.” As palavras são de João Gorjão Clara, coordenador do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (NEGERMI).

Em declarações à Just News, sublinha que “os médicos que trabalham nestas instituições são os que contactam mais diretamente com idosos em situação-limite, com multipatologias, dependentes".

E, nesse sentido, acrescenta, "são, de facto, casos muito complexos sob o ponto de vista clínico, como também social, e precisam, obviamente, de saber como adequar os tratamentos e os cuidados a estas necessidades.”


João Gorjão Clara

O responsável recorda que, precisamente por esse motivo, o NEGERMI tem apostado em ações de formação para profissionais das ERPI. Afirma mesmo que os cursos de Geriatria para lares foram dos projetos “mais gratificantes” em que tem estado envolvido.

Na sua opinão, seria mesmo muito importante a criação de uma associação que represente os médicos que prestam assistência nas ERPI: 

“É absolutamente fundamental, para que se possa investir em iniciativas formativas, de modo a que os idosos destas instituições, em situação muito complexa, possam ter cuidados de qualidade, adequados ao seu estado de saúde”.

Contribuir para a Geriatria ser encarada como "fundamental"

Estando à frente do NEGERMI desde 2013, João Gorjão Clara prepara-se para “passar a pasta” no próximo ano. Fazendo um breve  balanço do trabalho desenvolvido pela equipa ao longo destes anos, realça “a sua importância significativa no desenvolvimento da Geriatria em Portugal, estimulando os médicos mais novos a ver esta área como fundamental na assistência médica”.

Como sempre defendeu, “os idosos têm as suas próprias particularidades face ao avançar da idade e não podem ser tratados como adultos”. É preciso “ter em atenção vários pormenores, como, por exemplo, os medicamentos inapropriados”.

E especifica: “Não me refiro a fármacos contraindicados, mas aos que podem ser substituídos por outras alternativas, por terem um efeito terapêutico idêntico e menos efeitos secundários.”

A pensar nesta área, o NEGERMI publicou um pequeno livro sobre os “Critérios de BEERS”. Publicou também uma monografia sobre a “Avaliação Geriátrica Global”, a tradução que o próprio fez de Comprehensive Geriatric Assessment, outra sobre “Vacinação do Idoso” e prepara uma quarta sobre “Recomendações Sobre a Utilização de Cateter Vesical em Doentes Idosos Internados com Patologia Médica”.

Vacinação nos idosos com destaque para pneumonia e herpes zooster

Outro projeto dinamizado pelo NEGERMI que vai estar na rua é a campanha de vacinação a pensar nos mais velhos e a atualização do documento “Vacinação da População Idosa em Portugal – Recomendações Europeias”.

O enfoque estará na vacina da gripe sazonal, gratuita a partir dos 65 anos, mas também na vacina da tosse convulsa, do tétano, da pneumonia e do herpes zooster.

“A vacinação eficaz deve ser implementada, pois, representa uma estratégia importante para proteger os velhos da agressão de agentes patogénicos que os adoecem, que agravam as eventuais comorbilidades presentes e, com frequência, lhes provocam a morte”, sublinha João Gorjão Clara.

Destas vacinas, as que exigem mais alguma atenção, por serem menos conhecidas junto da população idosa, é a pneumocócica e a do herpes zooster: “A vacinação antipneumocócica em todos os idosos é provavelmente a melhor estratégia para prevenir a pneumonia e a doença pneumocócica invasiva, comum e muitas vezes mortal neste grupo etário.”

No caso do herpes zooster, o médico realça que “qualquer pessoa que tenha tido varicela na infância, ou que, embora sem ter a doença, tenha tido contacto com aquele vírus (95% da população europeia), está potencialmente em risco, dado que esta patologia resulta precisamente da reativação do vírus”.

Esta vacina pode assim evitar maiores complicações, tais como “lesões do olho que podem levar à cegueira no herpes ocular e a nevralgia pós-herpética, que provoca uma dor intensa e até incapacitante”.

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