Opinião

«Relato de uma experiência médica única em Timor-Leste»

Ana Carina Sá e Eduarda Pinheiro

Médicas interna de Medicina Geral e Familiar na USF Remos (ACES Alentejo Central) e USF Plátano (ACES São Mamede)

Os avanços tecnológicos e científicos aplicados à medicina são uma faca de dois gumes, porque nos permitem tratar hoje o que ontem era impossível, porém trazem consigo aquilo que tanto hoje se discute: o processo de desumanização.

Neste contexto, ponderamos se seria o conhecimento científico superior ao conhecimento humanístico, numa especialidade como a nossa, em que tanto se procura uma medicina (re)humanizada. Na nossa sociedade, que apresenta cada vez mais doença emocionais, mais carente de estabelecer relações interpessoais, a resposta pareceu-nos clara. 

Assim, surgiu então a ideia de fazermos um estágio de Cuidados de Saúde Primários em Dili, a mais de  14 mil kms de distância das nossas áreas de conforto. Porquê Timor-Leste? Após o processo de descolonização portuguesa vieram 30 anos de ocupação pela Indonésia e Timor-Leste só se tornou o primeiro novo estado em 2002. 


Sessão de boas-vindas pela equipa da clinica. Foram-nos oferecidos Tais, que são uma herança cultural que identifica a família, a linhagem e o grupo étnico, motivo de orgulho para os timorenses, pela sua simbologia e tradição

Nessa época, os timorenses experimentaram um dos piores padrões de saúde na região Ásia-Pacífico. Desde então, tem havido uma melhoria mas ainda existem lacunas significativas, portanto esta seria a oportunidade perfeita para pôr um pouco de lado a “Era Técnica” – para exercitar o raciocínio clínico, observar um leque de patologias diferentes e poder ajudar populações com cuidados de saúde deficitários.

Contactamos a Ordem de Malta, uma agência de ajuda mundial que actua através de numerosos hospitais, centros médicos e fundações especializadas – que é dedicada à preservação da dignidade humana e ao cuidado de todos os necessitados, independentemente da sua raça, interesses políticos ou religião. O nosso estágio foi aceite pela clínica e o processo decorreu nas conformidades, sem quaisquer dificuldades. 


Eduarda Pinheiro e Ana Carina Sá

Estivemos em Timor-Leste durante Setembro e, um mês de partilha com toda a equipa da Clínica da Ordem de Malta soube a pouco. Para além do serviço prestado na clínica (saúde adulto, saúde infantil, saúde materna), visitamos o hospital e centro de saúde de Dili – com os quais colaboramos em várias iniciativas - participamos em missões nas comunidades mais remotas sem acesso regular a cuidados de saúde (na área da imunização, rastreios, clínica geral e informação de saúde através de sessões de esclarecimento).


Rastreio da Malnutrição na Missão na Escola Dominicana em Hera, dia 15 de Setembro, onde foram vistas 168 crianças.

Estivemos diariamente em contacto com problemas sociais, com limitações nos recursos e na comunicação e dificuldades económicas, tivemos de improvisar  perante a limitação de fármacos. Ao ver crianças ter de caminhar quilómetros sobre o sol para ir à escola e o fazerem-no a sorrir, quando o consultório é a “cabana” de uma idosa que vive com a filha, o neto e meia dúzia de pintainhos, aprendemos a acordar cedo com um sorriso, a dar mais de nós a quem precisa e a relativizar os problemas. 


A nossa equipa na missão em Railaco (10 e 11 de setembro), com um dos “consultórios” atrás. Nesta manhã foram vistas mais de 50 pessoas, numa aldeia remota, onde só chegam cuidados médicos e fármacos uma vez por semana. 

Hoje não esquecemos as aulas de Tétum, o pôr-do–sol, os sorrisos e as lágrimas da despedida. Deixamos lá um pouco de nós e trouxemos definitivamente um pouco de Timor connosco, porque nos sentimos bem-vindas, sentimos que fizemos a diferença e parte da nossa missão é agora partilhar o que foi para nós este estágio.

Há um mundo lá fora a precisar da nossa ajuda e outro dentro de vocês próprios para ser descoberto. Como disse uma Professora minha da FMUC, “quem só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”… 


Nós e a Lanie, manager da clínica em Timor-Leste, durante a missão em Railaco. Um grande obrigada por nos terem recebido de braços abertos. 



Artigo publicado na edição de novembro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários.

De periodicidade mensal, Jornal Médico dos CSP é distribuído em todas as unidades de saúde familiar do país, sendo uma ferramenta única na partilha e promoção de boas práticas e projetos inovadores implementados nos cuidados primários.

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