Opinião

Investimentos na Enfermagem e ganhos económicos: uma díade a valorizar


Pedro Melo

Especialista em Enfermagem Comunitária. Professor auxiliar convidado do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa.



A relação entre o investimento na Enfermagem e os ganhos económicos a ela associados é uma área que exige um aprofundamento de estudos.

No Orçamento do Estado 2020, quando olhamos para as despesas dos serviços integrados, por classificação orgânica, verificamos um investimento de 10.025.127.216 euros na globalidade e menos um milhão, aproximadamente, quando se apresenta o destino das finanças para a intervenção na área dos cuidados de saúde.

Ou seja, 5,75% do total do OE é dedicado à saúde e no contexto do investimento associado às funções sociais (que corresponde a aproximadamente 18% do OE), onde se inclui a saúde, a educação, a segurança e ações sociais, a habitação e serviços coletivos e os serviços culturais, recreativos e religiosos, a fatia da saúde corresponde a aproximadamente 31% deste investimento, sendo apenas ultrapassada pelo investimento nos serviços de segurança e ação social.

O investimento em recursos humanos na saúde é fundamental para responder aos desígnios da nova Lei de Bases da Saúde, onde é vincada a centralidade da governança em saúde nas pessoas e não nas organizações. Isto implica uma afirmação de reposta em cuidados de proximidade, para que se possam identificar as necessidades reais das pessoas em contexto de cuidados de saúde e rentabilizar, assim, as respostas dos serviços de saúde.

É há muito conhecida a efetividade económica, por exemplo, na promoção da saúde, cujo investimento mais baixo do ponto de vista tecnológico permite ganhos consideráveis no aspeto financeiro.

Entre inúmeros exemplos, posso partilhar o estudo desenvolvido no contexto do Reino Unido, que monstrou estimar que, em Inglaterra, o investimento em programas dirigidos a pais para prevenir as perturbações do comportamento seja custo-efetivo: num prazo de 10 anos, um retorno financeiro de 8 euros por cada euro investido. (1)

É há muito conhecida a efetividade económica no investimento, por exemplo,
na promoção da saúde, cujo investimento mais baixo do ponto de vista tecnológico
permite ganhos consideráveis do ponto de vista financeiro.


No fenómeno dos últimos dados epidemiológicos sobre a evolução da covid-19 em Portugal, percebemos o aumento exponencial de casos na zona de Lisboa e Vale do Tejo, onde a realidade dos cuidados de proximidade não é a mesma que na região norte do país, com francas fragilidades nos cuidados de proximidade (recursos humanos e infraestruturas das unidades de Cuidados na Comunidade, unidades de Saúde Pública e unidades de Saúde Familiar).

Devemos aqui refletir sobre os comportamentos de adesão que se têm revelado fragilizados pela população, principalmente nestas áreas, que exigiriam cuidados de proximidade. E aqui refiro-me a cuidados de enfermagem, para potenciar a firmeza das pessoas para terem comportamentos de precaução de segurança adequados, como estavam a ter aquando da fase do estado de alerta.


Pedro Melo

Mais enfermeiros "para responder de forma personalizada"

A fragilidade nos comportamentos de adesão das pessoas reporta-nos para a importância de investir em recursos humanos de enfermagem, no contexto dos cuidados de proximidade, que permitam diagnosticar e intervir nos domínios cognitivo (conhecimentos e aprendizagem de habilidades para os comportamentos preventivos e protetores), afetivo (atitudes, crenças e volição) e comportamentais (os comportamentos de adesão).

O investimento em enfermeiros especialistas que promovam intervenção empoderadora das comunidades e das pessoas impede que se caminhe para processos que obriguem ao enclausuramento da economia, por via de respostas reativas, em vez de respostas proativas, dos serviços de saúde.

São precisos mais enfermeiros especialistas em Enfermagem de Saúde Comunitária e de Saúde Pública nas unidades de Saúde Pública e nas unidades de Cuidados na Comunidade, para enquadrar a gestão de projetos orientados para o empoderamento comunitário, alicerçada no planeamento em saúde.

E são precisos enfermeiros especialistas noutras áreas, assim como enfermeiros de cuidados gerais, para responder de forma personalizada às crianças, grávidas, idosos, doentes crónicos e famílias e aos doentes agudos nas unidades de assistência à doença mais específicas, como os Cuidados Intensivos.


Paulo Alves, presidente da APTFeridas, tem estudado a importância de investir em centros especializados de tratamento de feridas onde os enfermeiros são peças-chave

Outro exemplo no investimento em cuidados de enfermagem potenciador de efetividade económica seria o investimento nos centros especializados de tratamento de feridas, como propõe o Prof. Paulo Alves, num artigo publicado em janeiro no Jornal Médico. Nestes contextos, os enfermeiros, nomeadamente os que têm formação avançada em tratamento de feridas, deveriam ter recursos de proximidade no diagnóstico e no tratamento.

O estudo desenvolvido por Margarida Filipe em 2016(2) veio demonstrar que o tratamento de feridas complexas fica mais caro 13% no material de consumo clínico e farmacêutico do que seria previsto se houvesse cuidados preventivos para impedir o desenvolvimento destas feridas (nomeadamente úlceras por pressão).

Por isso, o investimento, por exemplo, em enfermeiros de Saúde Familiar é essencial para apostar nestes cuidados preventivos com os prestadores de cuidados.

Mas também o investimento nos cuidados das equipas de cuidados continuados integrados mais orientados, para a prevenção e otimização do papel de prestador de cuidados nos doentes crónicos mais complexos, para impedir o aparecimento destas feridas.



A fragilidade nos comportamentos de adesão das pessoas
reporta-nos para a importância de investir em recursos humanos
de enfermagem no contexto dos cuidados de proximidade.



Existe, contudo, um caminho de oportunidades para que o Governo de Portugal e os cidadãos portugueses compreendam a importância dos cuidados de Enfermagem e dos enfermeiros, como peças insubstituíveis na engrenagem da economia portuguesa, devendo ser valorizados de uma forma mais assertiva no contexto do investimento em saúde, devendo também este ter uma reflexão mais evidente sobre a importância de aumentar a proporção das finanças alocadas a este setor como um todo.


Referências:
1. Bonin EM, Stevens M, Beecham J, Byford S, Parsonage M. Costs and longer-term savings of parenting programmes for the prevention
of persistent conduct disorder: a modelling study. BMC Public Health. 2011;11:803. DOI: http://dx.doi.org/10.1186/1471-2458-11-803 
2. Filipe, MM; Silva, AP e e Gonçalves, S. Organização dos custos com material de consumo clínico e farmacêutico nas equipas de cuidados
integrados. Rev. Enf. Ref. [online]. 2016, vol. IV, n.10 http://dx.doi.org/10.12707/RIV16004 




Artigo publicado na edição de julho do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários.

 

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