Opinião

Projeto de educação sexual na adolescência: médicas internas esclarecem alunos do Entroncamento


Angela Danu, Cláudia Novais, Helena Santos, Andreia Medley e Cátia Gabriel

Médicas internas de Medicina Geral e Familiar da USF Locomotiva



A adolescência representa uma fase da vida pautada por diversas mudanças do ponto de vista físico, psicológico, emocional e social. Por esse motivo, a abordagem de temas da esfera da Educação Sexual, tendo como alvo a população adolescente, adquire grande importância.

A disponibilização precoce de conhecimentos nesta área faz com que os jovens se desenvolvam de uma forma consciente e desprovida de constrangimentos, tornando-se adultos mais responsáveis.

Por outro lado, dada a crescente e preocupante contabilização de casos de abuso sexual e violência no namoro na nossa sociedade, é necessária uma atuação célere, informando e mudando mentalidades.

É neste contexto que surgiu o projeto "Educação Sexual na Adolescência”. Realizado pelas médicas internas de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar da USF Locomotiva (Entroncamento), em parceria com a Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) Almourol, consistiu em duas ações formativas que decorreram nos dias 27 e 28 de fevereiro de 2020, na Escola Secundária do Entroncamento.



Tendo como público alvo os alunos do ensino secundário, regular e profissional, a formação consistiu numa componente teórica, sendo abordados temas como a Sexualidade na Adolescência, o Abuso Sexual e Violência no Namoro, a Gravidez na Adolescência, as Doenças Sexualmente Transmissíveis e os Métodos Contracetivos. A componente prática incluiu a demonstração dos vários métodos contracetivos e correta utilização. Por fim, foi aberta uma sessão de esclarecimento de dúvidas.

Sabendo tratar-se de um tema que ainda causa certo constrangimento aos jovens, no fim de cada sessão foi disponibilizado um questionário anónimo aos alunos presentes, avaliando o grau de sucesso da intervenção e quais os pontos a melhorar no futuro, possibilitando a colocação de questões que gostariam de ver esclarecidas.

O principal objetivo ao elaborar esse questionário, foi avaliar o grau de conhecimento dos alunos sobre um tema tão importante nesta etapa das suas vidas, pretendendo desenvolver outras ações formativas no futuro de acordo com as suas necessidades.


"Com quem fala quando tem estas dúvidas?"

Foram questionados, ao longo dos dois dias de formação, 303 alunos do secundário, sendo 174 do género feminino e 126 do género masculino. Importa realçar que 3 alunos adicionaram uma nova alínea ao questionário, respondendo que se definiam como sendo “de outro género/género indefinido” (Gráfico 1).

Os inquiridos tinham idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos e pertenciam a turmas do 10º, 11º e 12º anos (Gráficos 2 e 3). 


Quando questionados sobre a pertinência dos temas abordados, a grande maioria dos alunos (281) respondeu que tinham sido úteis, enquanto que 3 alunos, todos do género masculino, responderam que os assuntos discutidos não tinham sido do seu interesse. 19 alunos não responderam à questão (Gráfico 4).

Quando questionados acerca de se sentirem confortáveis ao falar dos temas abordados, a maioria respondeu que sim (250), enquanto que 32 responderam que não se sentiam confortáveis ao falar de sexualidade (23 do género feminino e 9 do género masculino). Os restantes alunos não responderam à questão (Gráfico 5). 



Através de uma questão que permitia resposta múltipla - "Com quem fala quando tem estas dúvidas?" (gráfico 6), tentámos saber a quem recorrem os alunos quando têm dúvidas sobre os temas relacionados com a sexualidade. A maioria diz recorrer aos “pais, irmãos mais velhos ou outros familiares”, seguindo-se a opção “amigos”, com valores muito semelhantes.

Alguns responderam ainda que se esclareciam junto dos professores, restando uma minoria que diz recorrer aos profissionais de saúde, namorados(as) e, ainda, às pesquisas na internet. Um aluno respondeu que não falava com ninguém e três alunos não responderam a esta questão.

Questionámos ainda quanto à existência de dúvidas acerca destas temáticas, colocadas de forma anónima (gráfico 7). A grande maioria dos inquiridos (275 alunos) respondeu que não tinha dúvidas. Apenas 17 alunos admitiram ter ficado com dúvidas, relacionadas com doenças sexualmente transmissíveis, masturbação, métodos contracetivos, interrupção voluntária da gravidez na adolescência, como abordar casos de violência no namoro, diagnóstico de vaginismo, gravidez e acesso à consulta de Planeamento Familiar.

Deveria existir mais informação disponível

Procurámos saber que outros temas gostariam de ver abordados na sessão.

Os alunos dos género masculino manifestaram interesse em obter mais informação sobre o ciclo menstrual e o período fértil feminino, preparação para a vida adulta e gestão da ansiedade associada, métodos contracetivos de barreira no sexo oral e distribuição gratuíta de preservativos no final das sessões.

As alunas do género feminino expressaram interesse em saber mais sobre assuntos relacionados com a orientação sexual, comunidade LGBT, homofobia e discriminação na sociedade, atitude dos pais perante a sexualidade, menstruação e doenças sexualmente transmissíveis, interrupção voluntária da gravidez, alterações do corpo durante a puberdade e como cuidar dele, masturbação, situações de violência no namoro e como abordar as mesmas.

Por último, perguntámos aos alunos se consideravam que deveria existir mais informação disponível sobre estas temáticas, nomeadamente ao nível da comunidade escolar, ao que a maioria (188) respondeu afirmativamente.

 
As médicas internas envolvidas no projeto com um dos elementos da UCC Almourol: Angela Danu, Cláudia Novais, Cristina Gonçalves (enfermeira UCC Almourol), Helena Santos, Andreia Medley e Cátia Gabriel 


Há um interesse generalizado pela Educação Sexual 


A recolha da opinião dos adolescentes foi extremamente importante, permitindo-nos obter feedback após a nossa intervenção. Percebemos que apresentam ainda, várias dúvidas relativamente aos temas abordados. Apesar da facilidade de acesso a informação, nomeadamente através da Internet, a maioria dos dados apresentados não são filtrados, pelo que a informação encontrada nem sempre é fiável. Torna-se evidente o quão fundamental é a realização de ações de educação para a saúde junto dos adolescentes, com vista a fornecer informação credível e de qualidade.

Através da realização deste projeto, pudemos constatar que há um interesse generalizado pelas questões relacionadas com a Educação Sexual, evidenciado nas respostas ao questionário e dúvidas expostas pelos alunos, o que nos leva a pensar que seria adequado existir uma área curricular destinada a esta temática.

Algumas das questões colocadas foram sobre tópicos abordados nas sessões, fazendo-nos questionar se a informação terá sido transmitida da forma mais adequada/aprofundada.

Verificámos, sobretudo no público feminino, interesse nas questões relacionadas com a orientação sexual e a definição de género. Três dos alunos inquiridos consideravam-se de outro género/género indefinido, tendo acrescentado essa alínea às hipoteses por nós colocadas.

Concluimos que existe alguma discrepância entre aquilo que transmitimos e as suas reais necessidades. Encaramos esta situação como uma oportunidade de aprendizagem, tentando ser mais inclusivas nas próximas sessões e colmatando a necessidade dos alunos de informação nesta área. 



A utilidade da criação de uma “Consulta do Adolescente”

Consideramos também importante a existência de equipas multidisciplinares com Médicos, Enfermeiros de Saúde Escolar, Professores e Psicólogos que possam especializar-se nestas temáticas de interesse crescente e às quais nós, profissionais de saúde, nem sempre estamos preparados para dar resposta.

Como internas de Medicina Geral e Familiar e futuras médicas de família, sentimos necessidade de ter mais ferramentas e formação para abordarmos de forma eficiente estas questões e saber, de igual modo, melhor orientar as nossas consultas de Saúde Infantil dedicadas a estas faixas etárias.

Ao longo de todas as sessões, fomos alertando para a nossa disponibilidade em receber os alunos no Centro de Saúde, quer para o esclarecimento de dúvidas, quer para a distribuição de métodos contracetivos (preservativos e pílulas), informando sobre a existência de consultas de Planeamento Familiar gratuitas e, acima de tudo, do sigilo profissional.

Consideramos, ainda, que seria interessante a criação de uma “Consulta do Adolescente” ao nível dos Cuidados de Saúde Primários. Num ambiente caracterizado pela confiança e privacidade, haveria espaço para abordar problemas de saúde que surgem neste grupo etário, bem como para lidar com dúvidas e conflitos internos e externos que se tornam mais evidentes neste período.

A importância do médico de família ser encarado como um apoio nesta etapa de transição

Sendo a Medicina Geral e Familiar a especialidade que acompanha o indivíduo em todas as fases da sua vida, é importante que o médico de família seja encarado pelos adolescentes como um apoio nesta etapa de transição entre a infância e a vida adulta.

Consideramos ter conseguido alcançar o principal objetivo deste projeto de intervenção, aferindo o real conhecimento dos jovens desta escola sobre Educação Sexual, verificando contudo que existe ainda discrepância entre a realidade e o nível de conhecimento que seria desejável.



Pretendemos realizar mais sessões de formação como estas, adaptando as mesmas às necessidades reais dos alunos, tanto ao nível da transmissão de informação como ao nível da formação em temáticas mais atuais referentes à orientação sexual, definição de género e violência no namoro.

Para concluir este projeto, iremos elaborar folhetos com respostas às perguntas que nos foram colocadas nos questionários distribuídos no final das sessões. Estes serão distribuídos aos alunos, reforçando a nossa diponibilidade para esclarecer outras dúvidas que surjam e os contatos para acesso a consulta no Centro de Saúde. 


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